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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Bebericam sobre as fezes e brindam com Champagne Heidsieck

Rodrigo Eduardo dos Santos

Eis que embevecidos pela possibilidade de uma nova chance, com a proximidade de findar-se mais um ano, erguem-se as taças, e brindam, como se realmente existissem motivos. Como se fosse possível comemorar tudo aquilo que não existe além das próprias mentiras que se contou, para fingir ser aquilo que nunca foi, e nunca será.

Um belo dia você acorda, e percebe que as pessoas continuam a ser aquilo que elas sempre foram, porém adultas, elas conseguem ampliar isso de tal modo, que inacreditavelmente, muitas vezes não conseguimos perceber o quão são egoístas, medíocres, traiçoeiras, interesseiras e covardes. Nesse meandro, é que me dei conta de quantas vidas aparentemente cheias de sentido estão enganando nossos olhos, me dei conta de quantas famílias aparentemente felizes, estão sendo estruturadas sobre bases extremante frágeis, sob a égide da mentira, que vem se enraizando desde muito antes, tendo como adubo a ambição acima de qualquer preço.

Desde muito cedo, aprendi a identificar apenas no olhar, esse certo tipo asqueroso de pessoa que normalmente cai facilmente nas graças de uma considerável maioria, sem despertar suspeitas para seu verdadeiro caráter, sua concepção equivocada sobre o que é ética. Essa distorção sobre a concepção de ética, penso que muitas vezes perversamente oportunista, traveste-se em sua maioria de simpatia, sociabilidade e bom gosto. Este bom gosto é o reflexo quase que imediato dos desejos de qualquer ambicioso que se preze. A ambição perpassa as questões que envolvem o status social, a ascensão social que pode proporcionar ao ambicioso a conquista, e assim, os valores éticos, se fundem com os próprios interesses de ascender socialmente.

Ascender socialmente requer muito mais que a conquista de bens materiais. Além disso, paradoxalmente emerge a necessidade de exposição destas conquistas no habitat social como uma espécie de troféu. A ostentação, demonizada aos domingos na igreja, entretanto praticada invariavelmente no dia a dia, de modo natural e intrínseco ao conceito de ética, já determinado anteriormente é uma característica pungente na construção desse indivíduo.

Nota-se desta forma, que construir um sujeito desse tipo, exige compreender antes de tudo, como ser mascarado, como vestir uma pele que lhe dê passaporte para qualquer canto, com qualquer pessoa, passando por cima de quem quer que seja em prol de interesses escusos, travestidos de família feliz.

O que definitivamente eu quero dizer com isso, é que hoje, quando inocentemente dedilhava as teclas do meu computador, me deparei com algumas atualizações no Facebook que me chamaram a atenção. Trata-se de uma incontrolável vontade de expressar de modo superlativo as conquistas sobre o pódio. Tal como na ficção, abarrotam a vida real um tipo de gente doente, capaz de todos os tipos de atrocidades para subir na vida. É normal alguém envolver a família toda no contrabando, tornando isso uma atividade natural entre os membros, lavando dinheiro em negócios aparentemente legais? Quais são afinal de contas os valores éticos que baseiam as relações dessa família de modo geral?

Sabe quando você começa a estranhar a forma como algumas pessoas chegaram feito cometa numa certa posição social? Sem moralismo algum, o que deve ser compreendido, transcende os meios legais ou ilegais que se conseguiu chegar aonde chegou. O que mais impressiona, é como nesta posição surge uma necessidade de fazer parte dos padrões éticos preestabelecidos pelo grupo social, padrões os quais foram transgredidos antes. Sabe aquela menina pobre, de cidade pequena, que ambiciona um mundo de possibilidades longe daquilo tudo? Aquela capaz de desprezar a própria família, de negar suas origens, de fingir ter nascido de chocadeira só para não apresentar o futuro almejado à pobreza da raiz. Aquela que em pleno século XXI impressionantemente usa de uma metodologia arcaica muito eficiente de conseguir aquilo que quer. Usa e abusa da vulva, da feminilidade, da sensualidade, da fragilidade, e como um canto de sereia vai encantando seu próprio pote de ouro. Estou falando de ambição, não de mulher, que fique claro. Por que ambição não escolhe sexo, não escolhe cor, não escolhe nem classe social. E por isso mesmo, por mais que ambição tenha a ver com acumulo de riqueza, também tem intima relação com a ostentação da mesma. E ostentar esta totalmente atrelado a ideologia hegemônica de que felicidade não pode ser outra coisa que não, uma família católica apostólica romana, com filhos loiros, fofos, de olhos claros, com avós super prestativos e com pais super presentes, mesmo sendo grandes empresários, buscam e levam os filhos na escola, gravam até mesmo o primeiro coco da criança, sorriem para a câmera, e ouvem música boa, por que aprenderam o que é bom gosto pagando muito bem pra isso. O fato, é que essa vidinha de comercial de margarina ignora um passado sombrio na maioria das vezes. Um passado jogado pra de baixo do tapete, onde pessoas foram usadas, desprezadas, humilhadas, tratadas como mero apoio para esse, “alçar voo”. As concepções acerca de ética retornam abruptamente nessa súbita escalada pelo poder, junto à capacidade de fingir ter conseguido isso com o suor do próprio rosto sem prejudicar absolutamente ninguém. Buscando fazer uma analogia, é como varejeiras, a bebericar sobre as fezes e mais tarde brindar com champagne Heidsieck num lual a beira de uma praia badalada, hospedado em um hotel cinco estrelas, com fotos instantâneas na rede social. Surge então a pergunta que não quer calar para por em contradição aquilo que muito poucas pessoas têm conhecimento. Os meios para chegar onde está deixaram quantos feridos para trás? Uma mãe rejeitada talvez? Ou uma família inteira? O mais engraçado disso tudo, é massacrar uma família inteira, com o puro e mero objetivo de formar outra família, que na sua concepção ética, é a superação daquela miséria de onde você veio, e deve ser esquecida da face da terra. Soa-me extremamente contraditório, no entanto, com disse antes, a ambição se atrela ao pensamento da classe dominante, que historicamente determina quais os requisitos para ser feliz e aceito socialmente. E ser aceito socialmente implica em esconder tudo àquilo que é feio, que é vergonhoso, que não vale nada, que o mundo do glamour abomina veementemente, mesmo que essa vergonha seja a pessoa que mais te ama.

Depois de ter me admirado com as seguintes situações, internamente indaguei qual a concepção de ética vem regendo minhas atitudes, e como as coisas não precisam necessariamente parecer bonitas e perfeitas. Basta que sejam o que são. Parecer não vai mudar as coisas como elas são, mesmo que eu me convença disso. O passado é um fato histórico, e em algum momento da vida “feliz” ele pode voltar a feder, e toda a sua concepção de ética pode desmoronar na tua própria cabeça. Já imaginou o que teus filhos vão pensar de você, quando descobrirem que tipo de coisa você esteve disposto fazer para construir essa mentira em que vive?


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Contradição de Natal

Quando o natal acabou


Cada pedaço de pessoa foi prun’lado

Cada momento disfarçado

De alegria, por tristeza foi trocado.

Quando o ano novo apontou

Cada promessa tão humana virou passado.

E cada alma generosa sem pecado

Regeneradas em uma confissão

Quando janeiro começou

Cada pessoa que beijou, e deu abraços.

Cada recado travestido de sentidos

Cada presente destruído

Virou passado e solidão.

Quando as estrelas já distantes

Em artifícios delirantes

Brilhando feito diamantes

Tão falsos quanto o teu amor

Interrompidos pelos seus conflitos

Que se desmancham feito sons dos sinos.

Reverberando o meu dissabor.

E de tanto ouvir falar que o amor vale um tostão

Fiz-me objeto embrulhado

Em papel de seda em laço

Desejando um passo em falso

Cair em contradição.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Pitangueira

Não me esqueço desse gramado

Desse verde, e da casa vazia.

Por que essas paredes me sufocam tanto?

Eu não sei por onde ando

Já nem sei se estou chegando

Parece muitas vezes que nunca parti.



Desse quintal que vive em mim

Da pitangueira que nunca esqueci.

Das tuas folhas pequenas

Das suas raízes nobres

Daquelas noites serenas

Janelas de sonhos, que nunca abri.



Apita pitangueira maestrina

A vida que se veste de menina

Menino que se despe ao por do sol

Apita pitangueira seu farol

O seu desejo de não ceder a ninguém.

Ser pitangueira, ser guerreira.

Ser de menino e de menina

Sem quem, por que, só bem.



Eu não esqueço o cheiro do fim de tarde

Eu não esqueço a chuva e a terra molhada

A macarronada, o pé de jabuticaba.

Suas partidas, suas chegadas.



Despedidas matinais, todo dia,

Eu não sei ser boa pessoa

E preencher essa parte vazia

Eu não sei sorrir a toa

A pitangueira que me dizia.

Chove a chuva molhada

Banho na enxurrada

Pitangas caídas no chão

Colhem flores, colhem dores.

Há uma pedra na minha mão.



Eu não esqueço que jogava pedrinhas

Das paredes azuis que hoje são pretas

Nem do baú, hoje gavetas.

De pitangueira a folhas secas.

Eu não esqueço a vó “mainha”

Da voz que tinha

Dos seus trejeitos.

Eu não esqueço a mãe que vinha

Da agonia

Dos meus defeitos.



E de tarde, a pitangueira coberta de orvalho.

Refletindo a fita solar

E de noite a pitangueira no armário

Pitangueira solitária

Esparramada no quintal

Trancada no próprio lar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Os tais senhores.

São apenas senhores

São os tais

São senhores de horrores

Animais

Secos moralistas,

Velhos egoístas, traiçoeiros e covardes.

Animais que sugam de tudo

São os tais

Aprovam as suas cifras, sem alardes.

São pastores, vereadores, são descartes.

Rastros desmanchados, seus crimes, seus critérios.

Ranços em pedaços, cordiais de porta de igreja.

Liberais, de ponta cabeça.

Senhores da casa de lei

Senhores doutores, se vestem de rei.

Senhores aposentados, com prêmios especiais.

Senhores ditadores

São os tais.

Os tais da calada da noite

Que decidem seus próprios destinos

Com aval, desse povo bovino.

Os tais indiferentes da corte

Que se condenam a liberdade

E se banham da impunidade.

São deputados, senadores, padres.

São apenas senhores,

São apenas doutores,

São apenas horrores.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Amor - te leve

A vida vem como um sopro, que de tão leve, não deveria pesar tanto.

Ela vem de pouco em pouco, e de tão breve, demora tanto.

Nela da tempo de criar amor, amor se cria

Nela da tempo de criar a dor, a dor se cria

Só não faça da vida, eterna apatia.

Ela vai desconstruir suas verdades

Suas metades.

A vida vem pra nunca mais voltar, de tudo que passa, só ficará

De tudo que fica só lamentar

Com todas as penas, não voará.

Amor, te leve, que de tão leve se esvaiu.

A morte breve, e de tão breve, nos consumiu.

A morte então acontece, e de tão fria, não deveria queimar tanto.

Ela vem como rabo de foguete, melancolia, percebida em qualquer canto.

Nela da tempo de criar amor, amor se cria

Nela da tempo de criar a dor, a dor se cria

Só não se cria essa melodia

Disfarçada de poesia.

Ela vai desconstruir as duas metades

É capaz de engolir, as suas verdades.

A vida vem pra nunca mais voltar, de tudo que passa, só ficará

De tudo que fica só lamentar

Com todas as penas, não voará.

Amor, te leve, que de tão leve se esvaiu.

A morte breve, e de tão breve, nos consumiu.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

No Verde - Louro desta Flâmula, existe um túnel, e espelhos d’água.



Sob os canteiros coloridos e as árvores robustas da cidade canção, prolifera-se uma planta inóspita. Uma erva daninha arrojada, moderna, de traços retilíneos, de temperatura gélida, erva em forma de concreto, ela cativa pela altura estonteante, derruba com golpe rasteiro a compreensão sobre a beleza. É como uma mulata que pinta os cabelos de loiro, ou a loira que pinta os cabelos de preto, é a perda da identidade e da referência, que passa despercebida aos olhos de quem acredita na falácia do desenvolvimento urbano, por meio da construção acelerada de prédios, centros comerciais, shoppings, luxuosos condomínios residenciais, faculdades privadas, hipermercados, tudo isso sob a égide do consumismo exacerbado, que se reverbera numa concepção destorcida do que uma cidade realmente precisa para ser considerada desenvolvida.

Entendo, desconfiado, os defensores deste desenvolvimento urbano proposto pelo governo pepista, por estarem imersos numa ignorância dos fatos, como eles são em sua raiz, concebendo a beleza a partir das ideias já vendidas pela ideologia dominante, os famosos padrões estéticos, pautados numa beleza duvidosa e pouco inteligente. Via de fato, é claro que todos querem desfrutar da beleza do lar, do conforto, de novas tecnologias, de tudo aquilo que o homem é capaz de produzir. O que deve ser questionado, em primeiro lugar, é se todos podem fazer usufruto destes bens, e em segundo lugar, qual o limite entre produzir o conforto e beleza, e destruir tudo isso, usando do mesmo discurso?

Quando alguns abnegados encaram o protesto contra a reforma da catedral, ou a construção do túnel na UEM, como uma perseguição política, ou como falta do que fazer, o que fica explicito, é a profunda incapacidade de questionar a realidade, além dos códigos explícitos. Há de se interpretar este texto que a realidade nos apresenta, buscando justamente compreender aquilo que não vem estampado, e que de fato, não há intenção em ser visto. Assim, quando questionamos o modo como se conduziu os procedimentos para a reforma da catedral, voltamos os olhos a impulsividade quase doentia de se atravessar um túnel dentro da UEM, e na memória resgatamos uma série de outros eventos, que fazem um delineamento daquilo que vai constituir a continuidade desse método autoritário e aburguesado de governar. Entre estes eventos, a derrubada da antiga rodoviária, com o simples propósito de construir um estacionamento, a cidade sendo planejada para fluidez no transito, e pedestres cada vez mais sem opções de circulação segura, ciclistas então, invisibilizados completamente.

“Por fora bela viola, por dentro, pão bolorento”, definiria as ações políticas investidas pelo governo pepista. O que de fato há, é a construção de uma imagem, produzindo uma ideia de pertencimento na população, assim, atordoados, vestem a camisa, e regam a erva daninha, para suas próprias agruras. Uma bela catedral, rodeada de espelhos d’água fotografada em época natalina, entre fogos de artifício, e as luzes decorativas, criam esta sensação de fazer parte de algo grandioso, de sentir-se orgulhoso de morar nessa cidade, te faz acreditar ter o direito de dizer ao mundo sobre as belezas do lugar em que você vive, mesmo, vendo a catedral de longe, de alguma das periferias, com canteiros nem tão floridos, com arvores nem tão robustas, com ruas nem tão limpas, com pontos de ônibus nem tão sofisticados, com arvores nem tão decoradas, com casas nem tão bonitas. A lógica é essa, centralizar as benfeitorias e criar a sensação de que todos estão sendo beneficiados. O centro da cidade vizinha à cidade canção, coincidentemente, governada por um pepista, segue o mesmo rumo, a avenida central, perdeu qualquer resquício de árvore, para calçadas e postes. Qualquer imbecil que por ali passe, enxerga o progresso, o desenvolvimento urbano. Este imbecil que vos fala, não compreende como este retrocesso pode ter chegado com essa nova roupagem, sem sequer ser notado.

Esse desvio de foco proposital, que nos faz preocupar-se com questões estéticas do município, escamoteia a não preocupação com questões que deveriam ser resolvidas definitivamente, antes ou junto a qualquer embelezamento falseado da cidade, como educação e saúde, sem banalizações. Não estou falando de merenda, nem de uniforme escolar, por que se a preocupação for essa, continuemos cultuando a bela catedral e sua magnitude, ou ainda os megalomaníacos projetos de centro cívico, ou túnel da UEM. Estou falando de se aprofundar nas verdadeiras mazelas, que nos colocam em classes diferentes, e que de fato mudariam a estrutura social, estou falando de dignidade, de liberdade e de igualdade, sem utopia, me refiro a ações concretas, não do concreto espalhado literalmente substituindo a capacidade intelectual da população, mas de ações efetivas, reais, sobre a realidade, que transcendam os espelhos d’água.



domingo, 25 de novembro de 2012

Um diálogo com um estranho na avenida solidão.


Passava do meio dia, já havia dado tempo de se recuperar do sapo do almoço. Debruçado sobre o centeio, dobrei uma das pernas como de costume, relaxei os ombros, recai o semblante, mais uma vez, dentre as mil. Abri o zíper da calça, chutei os sapatos de lado, observei o panorama, refleti: Eles já não fazem parte daquilo que me constitui, já não fazem parte de nada, sigo sozinho, não pela primeira vez, sigo sozinho, por que sigo pelo único caminho. Não há opções. E não há, justamente por que não há espaço, não cabe dentro de tudo o que eu compreendi do mundo, nem se quer um resquício de todo esse ar de indiferença. Senti-me, um estranho até para mim, recuei nas falas, recuei na alegria, recuei nas expectativas, recuei, por que não há de se levar a diante qualquer tipo de relação que possa mortificar qualquer possibilidade de existir, qualquer possibilidade de sentir-se vivo. Caminho agora, alardeando entre as floras, entre os perfis, entre os costumes, toda a ausência. Toda a ausência, parte da incompreensão, do egoísmo, do olhar para si. Notei, que ao observar o quanto eles se amam, a si mesmos, me senti enojado, eles falavam a todo instante, deles mesmos, não havia conversa, era como se houvesse uma parede que ecoasse para dentro o diálogo. Refleti, por mais um minuto: Avaliei meus posicionamentos, constatei inevitavelmente, o que não podem negar, eu sempre estive ali, eu sempre soube e fui “ouvidos” há quem tinha o que dizer, eu sempre perguntei, me interessei, dei importância, sempre a disposição, e, no entanto, isso nunca foi, absolutamente em momento algum recíproco. Como sempre, eles primam pelo monologo, eles falam sobre eles, eles perguntam sobre eles, sofrem por eles, e por mais que eu tenha interesse, por mais que eu dê importância, e por mais que eu tenha dado fé, e por mais que eu tenha criado expectativas, não há laço algum, que não se desfaça mediante, todo esse azedume, toda essa ausência de essência, todas essas opiniões contrárias, toda essa falsidade, toda essa covardia, todo esse preconceito velado, toda essa hipocrisia. Compreendi de fato, que esse caminho só é doloroso, por que eu aprendi a observar a paisagem, o contexto. Aprendi a interpretar a realidade, e cada passo nessa avenida é um momento de náuseas, de decepções, de indignações. O não conceber a possibilidade de que tornem superficiais, banalizem, ou reduzam tudo aquilo que faz parte do teu ser, tudo aquilo que faz parte da tua identidade, da tua essência, se torna maior do que a capacidade de tolerar. Quando chega o momento que percebe não ter absolutamente ninguém para dizer o que pensa de verdade, quando percebe, que o único lugar capaz de aceitar seus devaneios são os papeis, é que de fato nota que não existem laços capazes de amarrar absolutamente nada, e que se é para falar de si mesmo, e se é para não ser ouvido, prefiro dialogar comigo mesmo, um estranho, na avenida da solidão. Prefiro a solidão a esse diálogo torto e infeliz, prefiro a solidão a esse conceito raso sobre o interesse, sobre dar importância, e essa falta de capacidade de se por no lugar do outro.



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Senhora de Vênus


Tarântulas, tamanduás, e ela, sabem.

Tumultuar pra disfarçar, sem ter margem.

Ela partiu, em parte, desiludiu em marte.

Mulher carnívora, voraz e escrava.

Se humilhar não faz mais parte dessa válvula

De escape.

Desalmada, encontrei no meu penar.

Aquela senhora, de historias pra contar.

Sorridentes, e salvaguardadas.

Senhora de Vênus

Meu sonhos pequenos, são só seus

Seus olhos morenos, seu corpo pequeno não é meu.

Me vejo no espelho e acordo assustado

A idade é de Deus.

Na crença perene de estar convergente com seus ideais

Respostas decentes não partem correntes

Mulheres são crentes e choram demais

Mulher que sabe o que quer. Mulher, mulher, mulher.

Senhora de Vênus, teu canto é de ninar.

Mulheres pequenas que vestem problemas

Não podem mais respirar.

Sem hora, sem tempo, senhora de Vênus

Que desce das nuvens em passos disfarçados

Invertem boatos, descrevem-se os atos.

Senhora dos fatos. Sem hora pro lar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Reconhecida, mente.


Um homem não é um homem, se não for outro homem.

Outro homem que te faça homem, que te faça humano.

Que te reconheça.

...Um homem que desfaça o ontem, que se faz humano.

Que se estabeleça.

Um homem sozinho, não é um homem, nem sobre homem.

Nem sobre ontem, nem sobre hoje, nem sobre terça.

Não passa de ser irreconhecível.

Pois não há quem o reconheça.

Um homem que mente precisa de gente

Precisa de mais do que lhe pareça.

O homem que diz, precisa do homem que ouve

O homem que escreve, precisa do homem que lê

O homem que vive, precisa se reconhecer.

Reconhece-te no outro

E quando o outro é invisível ou ausente

Reconhece-te em ti mesmo.

Com a humanidade não reconhecida, mente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Casulos


Quantos casulos hão de durar obscuros?

Quantos humanos hão de sonhar sob os muros?

E quantas vezes há de se sentir só?

...Quanta solidão cabe numa multidão?

Cada janelinha esverdeada

Cada disponível sem solução

Onde tá todo mundo que não tá todo mundo junto não?

Eles parecem felizes, fotografam sorridentes.

Instagram como se fossem capas de jornais

No divã, me parecem tão banais.

Eles pensam momentaneamente como você

Praticam outras coisas, com outras pessoas.

Eles leem livros, mas não falam com pessoas.

Eles se omitem, e sorriem de outras coisas.

Quantos casulos juntos hão de durar?

Quantos casulos duros ei de romper?

Tantas solidões solitárias

As mesmas desculpas entre várias

As mesmas respostas canalhas.

Eles compartilham frases prontas

Insólitos a converter para a felicidade.

Revestem-se de orgulho

Travestem-se de maldade.

Quantos orgulhos hão de amargar?

Quantos orgulhos ei de ceder?

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Promessas



Vamos fugir, não vamos deixar nada pra ninguém.
Não deixe tantas coisas, pra depois.
Não tenha medo, dessa coisa de nós dois.
Nós temos tanto tempo pra acabar
Não termine esse momento sem pensar
Mensagens escritas, no meu celular.
Me dizem que não passou de promessas
Foram essas, que eu nunca esqueci.

Decida esse momento devagar
Não faça do meu mundo um inferno
Não adianta mais dizer eterno
Aquilo que não passa de um penar
Vem da boca pra fora como ar
Se sente, mas não tem como tocar.
Eu peço que me esqueça, eu peço mais.
Não seja meu amigo e se desfaz.

Faz algum tempo que eu notei
Eu acho que no fundo o que eu pensei
Não vale nem a pena, eu sei.
Então me deixe aqui sozinho
Não me engane com o seu carinho
Eu já estou tão insatisfeito.
Então me deixe aqui comigo
Não venha me propor ser meu amigo
Eu nunca disse que eu era perfeito.

Não posso mais viver de ser trocado
Não sei como viver sem ser usado
Eu troco minha roupa no mercado
Eu vejo todo mundo me roubar.
Eu vendo minha alma pro diabo
Eu ando disfarçando o disfarçado
Não tenho canto pra te acomodar
Com esse seu vazio no olhar
E essa sua mania de pensar
E termina o que sempre nunca começa
E me deixa esse balde de promessa
Pra que eu posso nos meus sonhos me encharcar. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Poema da permissão



Solicito o direito de nascença, o direito da descrença.
Aos bem aventurados amansados pelo fruto do trabalho árduo,
Elevo meus pensamentos desordenados
E o meu pouco cortejo aos seus abonos salariados.

Minha felicidade se mede em cifras
Quando em cifras se enervam pulmões áridos.
Respirar é condição de existência.
Aceitar é condição de demência.

Não reclamas pelo sol quente, nem pela chuva cotidiana.
São obras divinas, dizem os ocos otimistas.
Trabalham feito máquinas, vivem cheios de ressalvas
Tiram férias vão às praias
E me pedem intimistas.

Não abro mão, ó bem sucedidos!
Jesus te ama, dizem ungidos.
Reduzem o caos, te reduzem.
Reduzem suas reflexões, suas ideias.
Reduzem o seu modo de ver o mundo.
Chamam-te de pessimista
E numa redoma de vidro pronta a ofender
Vociferam: seu comunista!

Deem-me ó felizes algozes dos desafortunados
O direito a repudiar a desigualdade e a injustiça
Concedam-me o direito a existir como aprendi
De indignar-se com o óbvio, relutante a tua missa.
Não sou cordeiro, tampouco ei de me sacrificar.
Com o décimo terceiro salário
Com as férias reduzidas
E a visão empobrecida,
Pela manutenção, dessa classe,
Já enriquecida.




segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Poesia seca



São tantas poesias secas
São tantas vidas vazias
Que eu passo a frente dos dias
Como quem clama ouvir nostalgias

Exclamam: Viver de passado é museu!
Quem dera excluir da memória
Interceptar a história
Romper o que já se envolveu.

O que se cativa, se gruda, se finca
Como bomba de napalm
Arde, incendeia
Marca na pele, como gado
A tatuagem que se frustra, se trinca
Tudo que vive de passado.

A ideia construída do outro
É o aborto prematuro
O reflexo do passado
Inventando um futuro.

Saudosista de meia pataca
Nostalgia pela culatra
Lembra mesmo do que não viveu
Perpassou por casas vazias
Conheceu pessoas sombrias
Reclamou o que nunca foi seu.

O passado é abstrato em forma de aroma
Tem conteúdo, tem preenchimento
Vem cheio de coisas uteis
Desusadas, abandonadas
Termina com laços fúteis
Poesias, degoladas.

O passado é uma carta escrita com amor
Faz sentido, tem sentimento
Escreveu-se cheia de atitudes
Desonradas, descartadas
Termina com “desvirtudes”
Vidas rasas, amassadas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Absorvo

Feito guardanapo velho de papel
absorvo.
Absorvo feito gente grande capaz de abstrações.
Inerte a observar as promessas incertas
absorvo.
Feito quem observa o horizonte inalcançável
absorvo.
Feito esponja usada toda em fel
absorvo.
Absorvo o observável, e intocável
Pelo prazer de não morrer, absorvo.
Feito terra regada em lama, a sete palmos
absorvo.
E quando absorver for insuportável
talvez exploda.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Ela.

Ela disse que eu sonhava demais
disse que eu queria algo que talvez não fosse o que eu realmente precisava,
evidente que ela me conhece bem,
evidente que eu emudeci diante de saber que ela sabe de tudo aquilo que nem eu sei as vezes.
Ela se preocupa com meu insucesso, com minhas lagrimas e com meus sonhos longínquos e irreais.
Ela parte do real, daquilo que é possível ver em mim, na minha aparência, na minha expressão.
Ela é mais do que eu imaginei.
É quem me aguarda chegar na beira do cais com um sorriso tranquilo de conforto para a alma.
Ela esta cansada, entristecida, e com razão.
Eu estou inquieto, sem a solução.

Conta comigo

"Eu nunca mais terei amigos como os que eu tive aos 12 anos. Jesus e alguém tem?". Esta foi a última frase escrita na maquina de escrever de Gordie Lachance(Wil Wheaton), depois que seu filho junto a um amigo adentraram na sala com uma voz estridente chamando por ele. Lá fora no quintal todo gramado ao lado de um jipe brincando com toalhas de banho com seus filhos o filme termina com a música "Stand by me" de Ben E. King. Nó na garganta. Vontade de chorar. Um sentimento saudosista toma conta. Um querer ter vivido aquilo, exatamente daquele jeito. Ter tido amigos e histórias que marcassem uma adolescência com aventuras e descobertas. E toda vez que eu ouço a musica de Ben E. King, eu me emociono, e lembro exatamente de detalhes do filme, como o destino dos garotos narrado pelo próprio Gordie Lachance já adulto, principalmente quando ele cita o Cris Chambers ( River Phoenix) que sempre com seu senso de justiça, e com sua sensibilidade demonstrada durante todo o filme, terminou morto a facadas em um restaurante, por um motivo torpe.


Ocorre, que nos últimos tempos, poucos filmes, poucas histórias estão conseguindo passar o simples, o cotidiano de modo especial. Ocorre, que as pessoas transformam as relações em ideias mirabolantes do que elas deveriam ser. A exemplo, os filmes atuais buscam suprir essa ânsia pelo especial, e nunca atingem efetivamente aquilo que há de mais simples em nosso ser, aquilo que nos prende a vida, os laços de amor e de amizade que criamos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A homogeneização partidária e a grande vitória do coeficiente eleitoral em Sarandi.



As perguntas que não querem calar: A população consegue entender o que levou o segundo vereador mais votado de Sarandi a não ter direito a uma cadeira dentro da câmara? Caso soubessem disso, como agiriam diante desta possibilidade? A população sabe o que é coeficiente eleitoral? A população sabe o significado das siglas partidárias que escolheram para representar sua cidade? A população sabe que os partidos foram construídos historicamente dentro de uma sociedade com os imperativos da luta de classe e da ideologia burguesa? Sabem quais as filosofias que baseiam e norteiam cada partido? A população sabe que a ideia principal de tudo isso, é justamente que ignorem estes detalhes importantes da eleição? Afinal de contas, quem são as pessoas que constituem esta população? Como esta população enxerga o mundo? Como enxergam a política? Como se relacionam com os fenômenos sociais?
As inquietações diante do óbvio e da falta de respostas deveriam ser latentes em cada ser existente dentro da sociedade, no entanto o que temos é uma série de instrumentos ideológicos para a manutenção deste modelo de sociedade que concede a outras gerações a responsabilidade de transformar o mundo.
Não há transformação, quando nos deparamos com leituras longas e difíceis preteridas em detrimento da indústria do consumo e do entretenimento. Prometi a mim mesmo que não mais desenvolveria textos almejando esclarecer dentro do raio de alcance algumas poucas mentes obscuras e já tomadas pelas ideias hegemônicas burguesas. Contudo, mesmo sabendo que poucos terão a capacidade de fazer as abstrações necessárias para compreender o meu desatino literário sobre o processo eleitoral do ultimo dia 7 de outubro e a respeito de todo o contexto que o permeia, me sinto no dever de mais uma vez tentar explicar esse disparate social.
O primeiro ponto a ser destacado é o de compreender o porquê as pessoas ao seu redor estão descontentes com os resultados da eleição, se foram estas pessoas que com seus votos teoricamente elegeram este quadro. Afinal de contas, onde se encontram as pessoas que construíram esse panorama eleitoral? Uma cidade com mais de 80 mil habitantes, com um eleitorado de 59.410 apurados pelo TSE, com quase 4 mil entre votos brancos e nulos? Quais são os instrumentos que estão faltando para que tenhamos clareza sobre o panorama que vem sendo construído na política nacional? Internet? Educação? Informação? Mas como esses instrumentos seriam utilizados se eles fossem de acesso a todos? Tenho sérias duvidas quanto as justificativas a respeito do caos em que nos encontramos neste episódio grotesco das eleições municipais, principalmente as eleições de Sarandi.  Talvez seja um equivoco responsabilizar a falta de acesso às informações, por que informações são dúbias, são passiveis de interpretação, e podem ser utilizadas ao bel prazer de quem as toma posse. O que realmente pode definir como serão utilizadas estas informações é o esclarecimento, a posse dos conhecimentos burgueses, para então participar das eleições de um modo disposto a transformar.

Ocorre que, na medida em que eles começam a participar, as contradições de interesses que estavam submersas sob aquele objetivo comum vêm à tona e fazem submergir o comum; o que sobressai, agora, é a contradição de interesses, ou seja, o proletariado, o operariado, as camadas dominadas, na medida em que participavam das eleições, não votavam bem, segundo a perspectiva das camadas dominantes quer dizer, não escolhiam os melhores; a burguesia acreditava que o povo instruído iria escolher os melhores governantes. Mas o povo instruído não estava escolhendo os melhores. Observe-se que não escolhiam os melhores do ponto de vista dominante” (Saviani, 2000).

A participação popular deve ser então sabotada de modo que ela não compreenda essa ação. Para Saviani (2000) o significado político, basicamente, é o seguinte: é que quando a burguesia acenava com a escola para todos (é por isso que era instrumento de hegemonia), ela estava num período capaz de expressar os seus interesses abarcando também os interesses das demais classes. Nesse sentido advogar escola para todos correspondia ao interesse da burguesia, porque era importante uma ordem democrática consolidada e, correspondia também ao interesse do operariado, do proletariado, porque para eles era importante participar do processo político, participar das decisões.  "Ora, então essa escola não está funcionando bem" foi o raciocínio das elites, das camadas dominantes; e se essa escola não está funcionando bem, é preciso reformar a escola. Não basta a quantidade, não adianta dar escola para todo mundo desse jeito. E surgiu a Escola Nova, que tornou possível, ao mesmo tempo, o aprimoramento do ensino destinado às elites e o rebaixamento do nível de ensino destinado às camadas populares. É nesse sentido que a hegemonia pôde ser recomposta. Sobre isso, haveria coisas interessantíssimas para a gente discutir em relação ao que está ocorrendo no Brasil, hoje; a contradição da política educacional atual, em que a proposta de base, referente ao ensino fundamentai, é, a meu modo de ver, populista, e a proposta de cúpula, em relação à pós-graduação, é elitista.
         Assim, chegamos ao segundo ponto, a hegemonia burguesa que tem como principal objetivo disseminar a ideia de que não existe desigualdade ou diferenças entre as classes. Desse modo, transfere a igualdade para educação, para saúde, para justiça, e ao modo de pensar que se torna equivalente dentre a massa popular. Concomitantemente, a massa visualiza coisas importantes como as filosofias partidárias como desimportantes, como se fossem tudo a mesma coisa, como se tivessem os mesmos significados. Hoje é frequente entre a opinião popular ouvirmos coisas do tipo “eu não voto em partido”, “eu voto na pessoa”, pois bem, a pessoa em que você vota não esta descolada de um partido, ela é filiada a um partido e subentende-se que ela acredita na filosofia deste, bem como, representa os interesses do partido dentro do poder político. Diante disso, se não há compreensão do que significa cada sigla partidária, e o que cada um deles defende, estaremos alheios aos verdadeiros interesses da tomada de poder em nossos municípios. O que temos atualmente é uma extensão histórica da calhordice humana, que para assumir o poder, ou mantê-lo, é capaz de disseminar ignorância, e falsas informações a fim de manipular a opinião popular. A opinião popular manipulada, também é confundida pela quantidade de informações, e não consegue discernir entre falsas e verdadeiras, relembrando que o povo não aprendeu a buscar as informações por conta própria, são passivos, e aguardam que as informações caiam em suas mãos sem qualquer trabalho. Por isso, acreditam na primeira mentira que ouvem.
No Brasil criou-se uma cultura no mínimo estranha chamada coligação partidária. Na disputa pelo poder vale tudo, até mesmo a união de ideias extremamente opostas com o mesmo objetivo: conseguir votos dos eleitores desinformados. Mas qual o objetivo de montar coligações homéricas para disputa das eleições? Antes de qualquer afirmação sobre as ideologias partidárias, faz-se necessário observar uma lista dos partidos ativos no país.

Nome do partido
Sigla
Número eleitoral
Data de registro
Número de filiados[2]
Presidente
Ideologia
PMDB
15
2 354 388
PTB
14
1 180 541
PDT
12
1 207 639
PT
13
1 549 261
DEM
25
1 094 593
PC do B
65
337 355
PSB
40
577 233
PSDB
45
1 353 686
PTC
36
172 931
PSC
20
364 664
PMN
33
216 121
PRP
44
214 415
PPS
23
467 199
PV
43
336 017
PT do B
70
159 378
PRTB
28
113 735
PP
11
1 415 620
PSTU
16
13 294
PCB
21
15 937
PHS
31
141 534
PSDC
27
165 609
PCO
29
2 746
PTN
19
126 060
PSL
17
199 112
PRB
10
287 356
PSOL
50
66 043
PR
764 375
PSD
55
174 662
PPL
54
16 636
PEN
51

Ao observar a tabela anterior com um pouco de atenção, principalmente nas ideologias partidárias, teremos subsídios para questionar algumas coligações. No entanto o que temos que ter em mente, é que boa parte dos partidos na verdade compartilham sim da mesma filosofia, e muitos não assumem verdadeiramente suas ideias. Ocorre que a homogeneização partidária, origina-se de um único interesse, ter acesso ao fundo público, e beneficiar os interesses privados. Vejamos o caso do município de Sarandi: O prefeito eleito Carlos Alberto de Paula, do Partido Democrático Trabalhista – PDT formou coligação com os seguintes partidos: PRB/PP/PDT/PMDB/PSC/PPS/DEM/PSDC/PHS/PMN/PSB/PPL/PSD e PCdoB. A partir disso, voltemos as ideologias de cada partido na tabela supracitada, e teremos uma miscelânea disparatada de ideologias, como, por exemplo, CentrismoFundamentalismo,Sincretismo político de mãos dadas com EsquerdaSocialismoComunismo,Marxismo-LeninismoProgressismo. Temos ainda o CentrismoFundamentalismo e Democracia Cristã, junto da  Esquerda, Nacionalista, Socialista. Ora, que patacoada é essa? O que pode ter levado  partidos com ideologias tão diferentes a se unirem?
Temos então o terceiro e ultimo ponto, mas não menos importante. Na sociedade de classes, a fragmentação do pensamento é uma constante, a fragmentação do trabalho, da pratica e da teoria, das ideias e da materialidade, com o objetivo de nos tornar alheios.
A fragmentação partidária, para a homogeneização mais tarde é a bola da vez. São os partidos, junto com os interessados em beneficiar-se do fundo publico que financiam uma campanha. Quanto mais partidos, maior é o montante de dinheiro a ser gasto na campanha, e maior a quantidade de apoiadores/investidores. Para tanto, a ideologia do partido torna-se irrelevante e preterida, pois nesse jogo político, partidos independentes financeiramente, não terão força suficiente para construir uma grande campanha, e a luta torna-se desigual, ao contrario do que a classe dominante insiste em pregar, sobre a democracia.
 Esse desinteresse generalizado sobre as ideologias de cada partido por parte da população se dá por meio da descrença inculcada em relação a política nacional, que reforça a ideia que político é tudo igual, independe de partido político, e também na desqualificação de partidos independentes e de esquerda realmente. Partidos como o PT que sempre tiveram ideias de oposição ao neoliberalismo e elitismo, só conseguiram tomar o poder quando renderam-se em partes a esse jogo político, construindo alianças no mínimo duvidosas. Os poucos que permaneceram fiéis à ideologia enfrentam conflitos internos que prejudicam a consolidação do partido em algumas situações, como foi o caso de Sarandi. O Vereador Bianco, foi o segundo mais votado nas ultimas eleições, um candidato do PT que mantém suas convicções de um partido radicalista em sua essência, engolido pelo sistema.
O vereador Bianco segundo mais votado em Sarandi não entrou na câmara de vereadores por conta do coeficiente eleitoral, que a maioria da população desconhece. O coeficiente eleitoral trata-se de um sistema a fim de promover a democracia e a heterogeinização na câmara de vereadores. Como? Com o coeficiente eleitoral os votos direcionados para cada coligação partidária serão decisivos para a quantidade de cadeiras que este terá direito dentro da câmara, assim por mais votos que uma coligação obtenha outras coligações também terão a chance de obter uma quantidade de votos para conseguir pelo menos uma cadeira, assim criando a possibilidade de termos oposição dentro da câmara de vereadores. O que de fato acontece, é que com este sistema existe a possibilidade de aumentar a quantidade de cadeiras de acordo com a quantidade de votos angariados. Assim surgem as grandes coligações, com pequenos partidos, como foi o caso da coligação do prefeito eleito Carlos de Paula.
A fim de homogeneizar a câmara tendo a maioria dos vereadores a seu favor, o PDT conseguiu construir uma grande coligação que por sua vez disponibilizou uma grande quantidade de candidatos a vereador, que podem ser considerados as “iscas” de votos. O que ocorre, é que dentro da coligação já temos os candidatos com forte possibilidade de se elegerem, assim os subcandidatos vão apenas garantir uma maior quantidade de votos para que a chance de conseguir o máximo de cadeiras seja concretizada. Foi assim que o Carlos de Paula conseguiu por dentro da câmara, vários “capatazes” como Ailton Machado, Cilas Morais, Rafael do Povão, Nito, Roberto Grava, Nildão, Belmiro Barbeiro, Erasmo da saúde, Adilson e Nelson Lima. Todos os candidatos a vereador eleitos estão dentro da coligação “A transformação continua” do Carlos de Paula, então o que era para garantir democracia foi usado como instrumento para conseguir a centralização do poder. Estes vereadores serão na verdade facilitadores dos desejos espúrios do atual prefeito, e não terão absolutamente nenhum impedimento para tanto.
Por conta do coeficiente eleitoral, um candidato com 756 votos se apossou de uma cadeira ocupando o lugar de um candidato com 2035 votos, e você ainda tem a pachorra de dizer que vota na pessoa, e não no partido? Saiba então que votar na pessoa, muitas vezes não é o suficiente para elegê-la, para isso, é preciso observar quem são os partidos que compõem uma grande coligação, e automaticamente descartá-los, por que partidos que coligam com outros partidos de ideologias diferentes na verdade não tem uma ideologia consolidada, e muito menos preocupam-se verdadeiramente com as questões profundas que assolam a nossa sociedade, estes são oportunistas, e pretendem reproduzir e manter a sociedade tal qual ela se constitui, fragmentada, e classista, desigual e assistencialista.
Claro que não podemos delegar aos torpes desinformados o exercício autônomo da cidadania, se temos uma desinformação generalizada e intencional. A eles cabem buscar outros meios, cabem aprender a ouvir, e a acreditar depois de fazer os devidos questionamentos e reflexões. Cabem a eles iniciar leituras alternativas, e terminarem essas leituras, e interpretá-las. Sair do senso comum exige um esforço desumano para a classe explorada, mas é obrigatório, é essencial. Não se podem culpar os pobres por não saberem votar, ou por desconhecerem os tramites deste fenômeno democrático, afinal de contas não são só eles que legitimam o fio condutor da reprodução social. Também temos uma classe média idiotizada, e com um sério problema cognitivo em um processo falso de ascensão social, o que os torna interesseiros, covardes, imediatistas e traiçoeiros, e estes não reproduzem somente pela desinformação, mas pela cretinice de buscarem na corrupção, na falta de caráter, a possibilidade de beneficiar-se do poder publico das formas mais escusas. A soma de uma classe média idiotizada, de uma classe miserável desinformada e facilmente comprada, e de uma burguesia conservadora, resulta na vitória da manutenção do capital, na reprodução do sistema econômico de desigualdades, na continuação das relações fragmentadas, equivocadas e distorcidas.


Rodrigo Eduardo dos Santos


SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 33.ª ed. revisada. Campinas: Autores Associados, 2000.
WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre.  Anexo: Lista de partidos políticos no Brasil. Endereço eletrônico: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_partidos_pol%C3%ADticos_no_Brasil. Acesso em 15/10/2012.

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