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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Vinte e seis


Casou? Não casei. Teve filhos? Não. Saiu da casa dos pais? Não saí. Mora em um puxadinho no fundo de casa? Não. Engravidou uma menina de 17 anos? Não. Esta preocupado com o seu futuro? Sim. Como é ter vinte e seis anos? Não recomendo a ninguém, mas vou ser mais específico. Com vinte e seis anos, você percebe que o tempo passou, e que agora é um semi trintão, que não concluiu ao menos 10 % das coisas que gostaria de ter feito, nota que o tempo passa para todo mundo, e tem medo de ficar velho e gordo, e mais feio do que já é. Ter vinte e seis é ficar remoendo o passado, lembrando da infância, e de tudo o que poderia ter feito de diferente, que não fez, mas que outros fizeram e deu certo.
Um belo dia você acorda e todos os seus amigos de infância estão casados, grávidos, mudados, carecas, gordos, e tão frios com você, a intimidade e os assuntos em comum deixaram de existir desde o mundo adulto, acho que por isso ficam mesmo só as lembranças de uma infância de tantas histórias para contar. Sabe aqueles fins de tarde que se estendiam pela noite com os mais variados assuntos, e ininterruptas gargalhadas das coisas mais tolas que adolescentes podem fazer? Sabe aquela galera toda reunida, com tanto assunto que tem que brigar para falar? Lembro como se fosse hoje, todos sentados na mureta de tijolo, só não lembro bem do que falávamos, por que se eu lembrasse, hoje eu traria a tona o mesmo assunto, chorando por atenção, suplicando pelo sentimento de reviver o passado por mais um minuto que seja. Eu me recordo que por um instante eu fugi, eu fui o culpado, mas outros instantes, parece que pelos acasos e descasos da vida, convergiram para o distanciamento daquilo que parecia imortal. E hoje, só esta imortalizado nas minhas memórias, em poucas fotos, me entristece não ter registrado tantas coisas, por isso hoje eu necessito que tudo seja fotografado, afinal hoje, é o passado de amanhã. Não há mais vida na minha rua, e no funeral, me sinto tão solitário, nessa idade, nesses vinte e seis anos, nunca me senti tão sozinho, e tão morto. Mortificado, a cada casamento que deveria ser de alegria e é, a cada partida, a cada um que nunca mais voltou, a cada um que se foi pra algum lugar além do que eu possa manter os laços de amizade, a cada filho gerado, a cada vídeo de casamento onde eu apareço  ainda criança, junto, posando de inocente, e ai me lembro, que só tenho essa saudade justamente, por que, eu era o autor, eu construía a minha história junto com os outros, e no ápice da minha dependência, eu era tão independente, por que ainda era capaz de descobrir sem medo, medo de errar, que só se ganha quando adulto. Aos vinte e seis, o tempo passa tão rápido, e o mundo fica tão pequeno quanto seus sonhos. Tudo aquilo que te fascinou magicamente, hoje te parece tão bobo, tão tolo. Me lembro da primeira vez que ousei aventurar-se em dar a volta no quarteirão. Magistral! E a primeira vez que tomei um ônibus sozinho, era eu fazendo a minha história com tanta propriedade. Eu acho que jamais conseguirei traduzir aqui, em palavras, ou em qualquer outro lugar o que está na minha memória, é tão particular. Ontem, no casamento de um amigo de infância, ao me ver no vídeo, percebi como as vidas se cruzam, se descruzam, se afastam, e com vinte e seis, se não segue os padrões, se esta meio atrasado na ordem cronológica, a impressão, é que parou no tempo, retrocedeu, não cresceu a ponto de esquecer o passado, tão forte ainda por aqui. Alguma coisa aconteceu, algo deu errado, soa injusto isso tudo ter que permanecer no passado, tão distante, mas vejo que qualquer tentativa de trazer de volta, pode ser um desastre, um show de horrores. Os egos talvez sejam maiores que tudo o que já existiu entre nós. Esquece a corrente jogada no fio, o acidente na esquina de casa, as mandiocas roubadas do vizinho, a fogueira na data vazia, o pique esconde na plantação de vassoura, esquece a cidade desenhada no asfalto, ou na terra quente do quintal, debaixo da mangueira, dos boizinhos de plástico, das pinhas roubadas, do mês castigo, das bolas rasgadas, e das brigas homéricas com os vizinhos mais velhos, intolerantes às crianças. E vou mais longe, esquece do teatro de fim de ano, do amor do pré, do cheiro do Quick de morango, da minha capa de chuva transparente, da quadrilha, da professora do pré. Esquece dos panfletos que entregamos Deus sabe onde, dos sorvetes que vendemos, dos papelões que pegamos, das brincadeiras que brincamos. Esquece desses vinte e seis anos, que nos uniram, nos separaram, e deixaram nas fotos, e nas lembranças um sabor amargo de tempo que não volta mais. Mas esqueça sozinho, casado, mudado, pois eu não me esquecerei jamais. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O vírus do trabalho.


Não tem remédio, não tem cura, não tem solução. Esta espalhado aos quatro cantos, está arraigado em cada cristão, evangélico, homofóbico, gente de boa índole, moço de família, conservador dos bons costumes, pequeno e grande burguês a ideologia burguesa, de que trabalhar é a única dignidade que resta, aos pobres mortais. Feridos em suas dignidades, os pobres desempregados, se estapeiam em filas, em vias de retrocesso, deixam seus nomes, e suas funções, estão as ordens, prontos para produzir, reproduzir, regozijar da vida assalariada. Quem diria, que o trabalho, com suas inúmeras transformações, sendo o fenômeno fundante do ser social, aquele saudoso trabalho, espontâneo, regulador das atividades biológicas, primárias, básicas, tido como intercâmbio do homem com a natureza, para a produção das necessidades reais, estivesse tão próximo, do abismo em que se encontra, abismo coberto pelo véu da mercadorização, da coisificação do homem, da fetichização das mercadorias. 
A essência do trabalho estava justamente nestas relações diretas com o instrumento de trabalho, com os produtos deste trabalho, e com a real necessidade de se trabalhar. Vejam só como estamos subordinados a ideia de que o trabalho, ainda esta ligado as minhas necessidades primárias. Mas qual a relação direta que temos com o nosso trabalho, seja produtivo ou improdutivo, seja um assalariado ou um operário? Toda esta fragmentação que me distancia de quem eu sou, e das minhas reais necessidades, e como tudo isso se interliga de modo fascinante no sistema de metabolismo social do capital, só me fazem descolar-se ainda mais de tudo aquilo que até então, julgava a unica verdade. Para isso, aprendi a função dos paradigmas. Se não compreendermos as origens e as transformações do trabalho, que o subordinou as necessidades de reprodução do próprio sistema, com a fragmentação, o afastamento do sujeito da objetividade e da totalidade da produção de sua própria vida, não seremos capazes de discernir, o nosso verdadeiro papel no mundo do trabalho e das relações humanas que se inserem na sociedade capitalista.
Quem blasfemaria contra a ideologia capitalista dizendo sobre o horror de se ter que trabalhar de 8 a 14 horas diárias? Quem poria em discussão o horror de ser obrigado a viver em função de produzir coisas que não lhe dizem nenhum respeito, de ter que acordar cedo todos os dias, de fazer horas extras, de não ter tempo verdadeiramente livre? Quem atentaria contra o sistema de produção que move o mundo, que move a economia, que faz o dinheiro e as mercadorias girarem? Quem faria a critica aos lucros exorbitantemente incomparáveis em relação ao salário pago aos empregados?
Na verdade, por dentro, os trabalhadores agonizam aprisionados ao ódio que se mistura a conformação anacrônica, não exteriorizam de modo contundente, e culminam no ciclo vicioso e estático que torna imutável, incurável,  é o vírus. A doença, que torna pálido, anêmico, de cama, que mata veladamente, eles inventam de tudo, televisão, praças, shoppings, ginásticas laborais, tentam manter vivos, afinal, são mão de obra, são massa, mas se morrem, eis que nascem outros tantos sem berço, sem o sangue burguês.
Me pergunte a fórmula da riqueza, e responderei, nasça rico, ou dê jeito de explorar o trabalho de outrem. Seja o dono do meio de produção, e da matéria prima, seja o intermediário dos outros homens, com seus meios de subsistência, e lucre milhões com isso. Alie-se ao mercado, a competição, ao consumismo, a alienação. Parece fácil? Se fosse, não teríamos tão poucos com o verdadeiro poder nas mãos. Assalariados que ganham mais, outros ganham menos, uns mandam, outros obedecem, e isso é tão óbvio, a classe é uma só, mas nunca vão concluir isso por si mesmos enquanto o sistema fragmentar as relações humanas e de trabalho. 
Como zombies, admiram quem trabalha noite e dia sem parar, se orgulham, e dão exemplos as gerações seguintes, reproduzem os paradigmas. Mortos vivos, vão e voltam para suas casas, onde permanecem com a televisão, quando  muito os livros, alguns estudam, buscam de certa forma se libertarem, estes agonizam conscientemente, de olhos abertos, com a boca seca de tanto gritar e ninguém ouvir. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Do que é feito a educação?


Hoje, com olhos de gente grande, faço rugas na testa tentando puxar pela memória quais eram as minhas atitudes de aluno, quais eram as atitudes dos meus professores e como era a escola a qual pertenci por uma década inteira. Muito tempo não acham? Do pré ao fim do ensino médio foram longos 12 anos, 11 na mesma escola. Posso dizer que acompanhei por um longo  período o processo de desenvolvimento estrutural, desde as salas novas, aos muros de concreto que substituíram os alambrados de ferro. Foram várias pessoas, indo e vindo, vários professores indo e vindo, alguns estiveram desde o inicio e permaneceram, alguns amigos carrego até hoje como grandes companheiros. 
O que eu quero me perguntar mesmo, é como é que andava a minha educação, e a educação na minha escola nesses tempos. Quero saber da minha vontade de estudar, de ler, das minhas facilidades em aprender, em prestar atenção, em buscar conhecimento, em escrever, em criar, em respeitar. Eu fui um bom aluno? Eu tive bons professores? Eles sofreram comigo e com a situação a qual eram sujeitados? Por que eu realmente nunca pensei que pudesse estar desse lado, o do professor. Sim, além dos 12 anos, foram mais 5 anos estudando no ensino superior, aprendendo coisas que em 12 não fizeram nem cócegas no meu cérebro. Hoje, eu vejo que aprendi muita coisa, contudo, o desafio maior, é justamente transmitir todo esse conhecimento que me abriu a mente, às mentes fechadas, caminhando contra todo um sistema de ensino que aprendeu que não precisa ensinar muita coisa, o sistema cooptado e inserido no modelo capitalista não vislumbra grandes cérebros, e contenta-se com seres alfabetizados, capazes de tornarem-se massa de manobra no máximo, sem grandes possibilidades de articulação e transgressão do modelo social vigente. 
Aos que sonham ser professores e compartilhar de um ambiente de cultura e intelectualidade, acreditem, eu fiquei bestificado com a ignorância, a falta de companheirismo, a grosseria, a falta de comprometimento, e vejam só, a falta de EDUCAÇÃO por parte dos mesmos. Um ambiente hostil, um ambiente calcado na covardia de homens traiçoeiros construídos pelo sistema. Uma decepção. Como lidar com a falta de compaixão, com a falta de solidariedade daqueles que deveriam ser os primeiros a te acolher? Ronda um preconceito obscuro por todos os lados meio aos educadores, meio ao ambiente já hostilizado. Preconceito com quem esta iniciando, preconceito com professores do PSS- Processo de Seleção Simplificada, e o preconceito com o professor de Educação Física, o que não é novidade para ninguém. E eu me pergunto, com tantos desafios, ainda somos obrigados a enfrentar esse tipo de situação? 
E me pergunto, pais, vocês se preocupam com a educação de vossos filhos? Será que ninguém consegue perceber onde chegamos? Ou será que fingimos? Não sei o que sabem sobre as escolas, mas o que vejo, é um lugar tomado por dinossauros e fosseis de uma educação que já não dá mais conta de ensinar nos moldes tradicionais, e faz desse angu, o prato principal. Já esta muito claro que a preocupação do Estado e da secretaria de educação, é com os números, as estatistias, quanto mais alunos aprovados, maior o índice de alfabetizados, de corpo na escola, menos evasão. Ora, se está tão fácil assim ser aprovado, por que desistir? Não que eu deseje alunos desistindo, mas isso é tão estratégico. O pré histórico livro de chamadas ainda é o meio de controlar professores e alunos, misturando-se aos conselhos de classe, que são medonhos. Um tal de aluno que não pode reprovar daqui, e não pode reprovar dali. Professor fazendo das tripas coração para passar aluno, fazer livro de chamada, avaliar, dar aula, cumprir horários, planejar aula, e ele ainda tem que se atualizar. O caos. assim eu caracterizo a educação. Os alunos, em grande parte estão se transformando em mão de obra, seres não pensantes, não críticos, emburrecidos, ignorantes, e semi analfabetos. Os professores mais velhos estão cansados, e espalham um discurso derrotista e conformado, diante de uma educação desestimulante. Te pedem inovação e criatividade, e não lhe oferecem ao menos uma cartolina, a falta de material, de condições estruturais, de quadras, de materiais esportivos, somam a todos os problemas deste ambiente e montam um quadro desesperador. 
Dia desses tentei trabalhar um texto em sala de aula, e desisti quando percebi que os alunos não tinham capacidade de interpretação suficiente para entender e debater o assunto, eles eram do ensino médio. Me senti frustrado, não necessariamente derrotado, mas refleti sobre os discursos fúnebres sobre a educação que veio dos outros professores. As mãos parecem atadas vez ou outra, por que se briga com aluno que não quer aprender, se briga com professor que não te respeita, se briga com funcionários que não querem trabalhar, por que se você começar a movimentar a estrutura, consequentemente os outros tem que se mover, e é tamanha a estagnação, que as reações são as mais adversas, desde caras feias, a caras mais feias ainda. O fato é que o ambiente escolar me parece mudado, as salas de aula me parecem causar um certo desconforto, uma vontade de fugir, a sala dos professores me parecem frias e emburrecidas, e todos caem nessa teia do Estado, que nos faz insetos enredados, sem ter pra onde fugir.


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