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quarta-feira, 20 de julho de 2011

O "Pink Money", os estereótipos e a apropriação de "guetos" pelo Capital.

Apesar de há algum tempo já existente, poucos são aqueles familiarizados com um termo que, por dentro de todo o debate gerado pelo brutal aumento dos ataques contra homossexuais tanto nas ruas das principais capitais brasileiras quanto no Congresso por Bolsonaro's e evangélicos, adquire centralidade e merece uma atenção especial daqueles que buscam entender como o capitalismo pretende a "resolução" de algumas das principais expressões de sua crueldade enquanto sistema econômico e social. Tal termo é o "Pink Money".

Criado já há algum tempo, o termo, como se define na Wikipedia, faz referência ao "poder de compra" da comunidade LGBT. Suas origens, alcance e perspectivas podem ser sintetizados da seguinte forma: "Com a ascensão do movimento dos direitos gays, o pink money passou de uma franja de mercado e marginalizado para uma próspera indústria em muitas partes do mundo ocidental, como os Estados Unidos e Reino Unido."¹ 
Esta dinâmica de transformação, da qual já emana um profundo conteúdo ideológico e desnuda inicialmente a maneira pela qual os capitalistas buscam lidar e entender a comunidade GLBT, encontra em numerosos artigos na internet e blogs aprofundamento e desenvolvimento.
Na maioria destes pontuam-se as bilionárias cifras que envolvem o "consumo gay" e buscam, por incontáveis vias, alertar e pontuar a importância de entender o "mercado" para, assim, e não há nada mais ideológico do que isto, "tirar melhor proveito" dele.

O que (dizem ser) é o "consumo gay" e a utilidade dos Estereótipos

Basta uma busca rápida e uma olhada nos estúpidos programas do dito "humor" para entendermos quais são as predileções dos homossexuais e/ou quais as áreas de interesses destes segundo a ideologia burguesa. Segundo um site dado a refletir o impacto, benefícios e a necessidade do empresariado e marketeiros dispenderem atenções ao "consumo gay", as principais áreas de interesse da comunidade são a automobilística, tecnologia, turismo, moda e luxo.²  
Obviamente que toda a estética e referências envolvidas são recheadas de todo o tipo de estereótipos e chavões pejorativos os quais, historicamente, foram atribuídos aos gays.
O Sadomasoquista, o bombeiro, o "emplumado", o delicado, o espalhafatoso, todos são os "tipos ideias", dos quais, nenhum homossexual, bissexual ou transsexual pode escapar. 

Tal é e sempre foi a tendência de interpretação das minorias e dos grupos indesejáveis, por parte da ideologia dominante, que seja, estereotipá-los, transformando-os em elementos caricatos e identificáveis, passíveis de separação e segregação para, assim, "Guetorizá-los" e proteger o padrão de indivíduo, desejável, estável, heterossexual, casado, branco e que deve se constituir, necessariamente, como a regra da sociedade como um todo.
Este processo, todavia, não é novo, nem na história dos oprimidos, nem no caso da comunidade LGBT. 
Basta ligar a TV em qualquer canal propagador do sensacionalismo e evidenciador da barbárie cotidiana da sociedade de necessidade capitalista, para vermos quais são os estereótipos atribuídos aos Jovens negros, pobres e da periferia, enquanto ladrões, estupradores e bandidos; às mulheres, enquanto, em sua grande maioria, donas de casa, "esposas", submissas e resignadas e, se forem negras, enquanto domésticas e faxineiras (Não por retratem a triste realidade da maioria da População feminina deste país submetida aos piores e mais degradantes empregos, mas por reproduzirem-nas enquanto corretas, sem críticas); dos homossexuais como os, chamados socialmente, "tarados", escandalosos e descontrolados e segue-se uma longa linha de definições rígidas e absurdas...

Como dissemos, no entanto, tal processo serve como uma espécie de "definidor universal" e bloqueio da ideologia dominante, definindo o "distinto" e o "regular", o diferente e o normal, para garantir a manutenção de seu padrão desejável e colocar em seus devidos guetos o que "surge e é diferente" sendo que, invariavelmente, como em tudo no capital, tal processo terá suas implicações econômicas, que encontram uma expressão acabada em relação a comunidade GLBT no "Pink Money".

 Pink Money: Aspectos positivos para a comunidade GLBT em sua "integração"?

A transformação da comunidade Glbt em "mercado gay", necessariamente precisaria passar por um processo de "homogeneização" de interesses pela via da conformação de tipos ideias, estereótipos, que, como demonstramos, servem a um interesse essencialmente ideológico de separação daqueles agrupamentos de indivíduos de um todo, cujas características são tidas como ideais e desejáveis. 
Esta definição possui base histórica e, sendo assim, basta voltarmos 40 anos no tempo para observarmos o quão indesejáveis e segregados eram os homossexuais na Grande Nação da liberdade, os EUA, na qual, os ataques aos homossexuais nas ruas, praças e pontos de encontros, dentre eles o emblemático STONEWALL, ao qual iremos nos referir mais a frente,  pelos orgãos repressivos do Estado -Polícia- eram tão comuns, ou mais, quanto os espancamentos, prisões arbitrárias e assassinatos de jovens "afro-americanos", submetidos a um apartheid aberto, que começavam a se organizar nos Grupos que dariam origem aos “Panteras Negras”.

Esta transformação das ditas "diferenças" em "mercados" é uma das principais ferramentas de objetificação de agrupamentos de indivíduos com características distintas do padrão aceitável burguês e, igualmente, uma importante ferramenta de cooptação e "fagocitose" destes setores, outrora oprimidos e atacados. Vende-se, então, a ideia de que, para garantir-lhes espaço na sociedade, é necessário atender-lhes aos seus interesses, cujas fontes de referência são os numerosos estereótipos pré-estabelecidos, realizando, assim, um duplo objetivo aos capitalistas: A transformação dos setores oprimidos e marginalizados em números objetivos e fonte de consumo para determinados ramos da produção e a cooptação destes setores e "amortecimento" dos conflitos sociais, estes gerados pela própria ideologia capitalista que, naturalmente, por dentro de uma sociedade de opressão e exploração, não deixarão de existir. 

O resultado é o esperado e constatado em relação a muitas comunidades historicamente oprimidas, ou seja, seu isolamento em guetos constantemente discriminados e atacados, elemento extremamente desejável pelos capítalistas pois divide a calsse trabalhadora dentro dela própria, com heterossexuais discriminando homossexuais, etc; a cooptação de milhões destes oprimidos ao projeto de sua realização no consumismo e na obtenção dos bens e posições ideologicamente vendidos e, em momentos de agudização das tensões sociais; a retomada de uma escalada de violência e ataques àqueles que representam o "indesejável" e não mais podem ser "toleráveis"- existe termo mais ideologicamente reacionário e cínico do que este?- na sociedade.

Recentemente, vimos reportagens que nos colocam os números da barbárie cotidiana relegada aos GLBT's e que nos evidenciavam espancamentos cotidianos de jovens que moram nos morros dos Rio de janeiro. Da mesma forma, centenas de mortes continuam ocorrendo todos os anos e o número de espancamentos, só na região da avenida Paulista se mantém em níveis estratosféricos. No mesmo sentido, a bancada evangélica organiza milhares de pessoas em marchas contra os direitos GLBT's e propagam, ao lado dos adeptos- assumidos- da ideologia da ditadura militar e da extrema direita, o ódio e a morte aos gays, lésbicas e todos os de orientação não heterossexual, pelo bem da Família, da Ordem e da Propriedade Privada. Neste cenário, até mesmo os grandes avanços, como a recém aprovada União estável, perdem completamente seu brilho, frente à reacionária PROIBIÇÃO de homossexuais doarem sangue e o veto Homofóbico, perpetrado por Dilma, ao Kit-Anti-homofobia. Nos termos mais populares e simples possíveis, fica a pergunta: "De que merda de integração dos GLBT os marketeiros e cães do capitalismo de plantão estão falando?"

De volta a Stonewall (Por isso lutamos) e a liberdade de SER

A revolta de Stonewall, como ficou conhecida, foi um processo de resistência e confrontos ocorrido em Nova York, em 1969, como resposta aos corriqueiros ataques, prisões, espancamentos e prisões arbitrárias que ocorriam na região da cidade conhecida como Greenwich Village. Após o que seria "mais uma batida cotidiana policial" os moradores homossexuais, travestis e moradores de rua que residiam na região e se encontravam no Bar Stonewall, decidiram se levantar e reagiram, desta vez nos mesmos termos, aquele ataque cotidiano. Prenderam os policiais e provocadores dentro do Bar na primeira noite, enfrentaram-se com as tropas de choque detrás de barricadas por semanas lado a lado de artistas, jovens, trabalhadores e militantes negros que já haviam combatido a polícia nas manifestações anti-guerra e, sendo assim, deram passos decisivos na autodeterminação de seus destinos, aglutinando milhares ao seu lado.

O processo de Stonewall, no qual se desenvolveu uma auto-organização interessantíssima contra a repressão e sua segregação, foi o berço de formação de organizações de luta pelos direitos do que chamamos hoje de GLBT, organizações estas que passaram a retratar as mazelas e a opressão cotidiana e a, até mesmo, organizar ações de enfrentamento tático contra a repressão que ainda perdurava em nome do Esquadrão de Moral Pública da época, que, em numerosos Países tem numerosos nomes com o mesmo intuito, proibir, reprimir e, quando possível assassinar. Este exemplo, não poderia deixar de ser lembrado e, dele, não podemos deixar de buscar lições.

Obviamente que não propagamos aqui a condenação em relação a qualquer aspecto dos "estereótipos ideais" que criticamos. Os exaltamos para evidenciar o quão simplista e formatador é o movimento da ideologia burguesa a serviço dos interesses do capitalismo que transforma o indivíduo, cujas potencialidades são enormes e tendem ao infinito, em elementos formatados, rígidos, secos, limitados e reprimidos em todos os níveis, sobretudo pelos padrões machistas, homofóbicos e racistas que fundamentam esta ideologia.

Os lutadores de Stonewal diziam :  
"times were a-changin'. Tuesday night was the last night for bullshit.... Predominantly, the theme (w)as, "this shit has got to stop!"Participante anonimo. Ou seja, esta merda tem de parar. Em inglês, inspirador. 
A opressão e "guetorização" dos GLBTT's tem de terminar e, mesmo com o brilhante e inspirador exemplo de Stonewall, sabemos que ainda demos pouquíssimos passos no sentido de avançar para sua "liberação", sobretudo, porque sabemos que estas tarefas envolvem, como buscamos demonstrar, um questionamento mais profundo da sociedade de classes na qual estamos.

Apenas questionando os estereótipos, os "dever-ser", a dinâmica de apropriação de um lado e de segregação de outro estabelecida pelo capitalismo em relação aos "indesejáveis"; somente buscando construir uma sociedade que se livre de todo o culto à aparência e busque a essência; somente construindo escrupulosamente uma sociedade cuja produção esteja a serviço das necessidades da maioria da população e não do lucro de uma fração ultra-minoritária da sociedade, os capitalistas; somente construindo, hoje, no pequeno, polegada por polegada, uma Contra-moral, uma legítima moral revolucionária, que se paute pela Liberdade Sexual completa; somente construindo uma sociedade que se paute por uma moral que não se pauta na auto-repressão, no auto-flagelo, na discriminação, na segregação, mas sim na completa autodeterminação pensada e organizada coletivamente; somente assim, refletindo e construindo tudo isto e muito mais, é que avançaremos na perspectiva da superação de nossa opressão, seja qual for.
O capitalismo merece e PRECISA perecer


 O capitalismo é um sistema econômico e social Podre e decrépito, baseado na exploração, na mentira e na transformação das massas em objetos de uma ínfima minoria. A ideologia Burguesa teve muito esforço em caracterizar a doutrina marxista, no que diz respeito ao que prega acerca do desenvolvimento do individuo e acerca das questões cotidianas e "morais", como um sistema de idéias que pregava o Rígido, estreito e o castrador. Não é difícil lembrar da propaganda anti-comunista que colocava lado a lado milhares, com fardas verdes, pastas de dentes iguais, vivendo em ocas gigantes e completamente alienados.

Na realidade, é nesta inverdade que se evidencia o principal medo e este é o recurso ideológico mais desesperado e de apelo ao velho que a burguesia internacional lança mão. Hoje, milhões passam fome enquanto bilhões de alimentos são queimados todos os dias. Igualmente, bilhões estão relegados ao desemprego e observam a face cruel de suas mortes sem perspectiva. Milhares e milhares de recursos, terras e bens nas mãos de pouquíssimos capitalistas e bilhões de desalojados, desabrigados, desprovidos de terra, moradores de Rua, etc. As idéias, os costumes, os valores, o aceitável é um padrão que se vende em lojas e homogeniza as intenções e os desejos- ou a repressão destes-...

Lutamos pela liberação desta lógica de opressão. Pelo fim desta sociedade e por uma cuja produção esteja a serviço de produzir e garantir, sejam remédios, alimentos, casas, transportes, etc e etc, a maioria da população conforme precisem. Somos pela transformação desta ideologia castradora e pela completa liberdade sexual, pela libertação da produção artística, pelo livre desenvolvimento da individualidade de cada um, dentro de uma sociedade dirigida CONSCIENTEMENTE e coletivamente.

Digam-nos: O que lhes soa mais castrador e arcaico? O que a sociedade capitalista tem a nos oferecer?

STONEWALL e o exemplo de seus lutadores, se organizando de modo independente e se aliando aos setores de jovens e trabalhadores negros, das periferias, contra os patrões e capitalistas castradores representados pela Polícia, nos indicam um caminho diferente do "PINK MONEY", da "integração burguesa" e de toda a opressão que nos reservam os espectros do velho.

AVANTE!

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