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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Essa conversa é sobre a classe explorada, não sobre a classe média em pseudoascensão social.



Queridos maringaenses de classe média, que moram em um bairro onde a especulação imobiliária constrói uma muralha invisível entre as classes. Você que mora na zona 07, na zona 02, na zona 04, na zona 05, no centro ou novo centro, entre outros bairros considerados nobres, onde as políticas publicas, chegam como num passe de mágica, onde existem belos jardins e canteiros centrais: eu sei que é difícil quando alguém nos faz enxergar nossos próprios privilégios, mas deixa eu tentar mais uma vez.
Eu não me importo com o quão “difícil” será para você adquirir mais bens, mais terrenos para construir uma porção de casas geminadas de péssima qualidade para vender sonhos para os mais pobres que você. E não me importo o quão “difícil” será construir verdadeiras mansões para garantir a continuidade do seu conforto.
Não me importo o quão “difícil” será para você fazer uma viagem para o nordeste todo fim de ano, parcelado a perder de vista, para que você possa relaxar e esquecer os problemas diários.
Eu não me importo com o quanto de empregos sua pequena empresa esta gerando para essa cidade, e o quanto sua benevolência clientelista e solidária esta espalhada em suas orações no conforto de seu lar, tomando uma bela taça de vinho, saboreando alguns petiscos, e crente que sabe falar sobre política.
Eu não me importo com o quão “difícil” o transito esta se tornando para você que possui em sua casa um carro para cada membro familiar, e que tem a pachorra de falar de sustentabilidade, de meio ambiente, com toda a hipocrisia que aprendeu com seu rico dinheiro.
Essa conversa não é sobre o seu plano de saúde defasado, nem sobre como a democratização e popularização da saúde privada fez com que essa situação se tornasse insustentável para a concretização do seu desejo de se sobrepor ao restante da classe que sofre nas filas do SUS.
Eu sei que praticamente todas as conversas deste mundo são sobre você, sobre seus anseios de consumo, e você está acostumado com isso, então deve ser um baque não ser o centro das atenções. Mas, seja forte! É verdade: nós não estamos falando sobre você.
Quando você chora em defesa de uma cidade conservadora das tradições, dos bons costumes e da moralidade cristã e alega que em suas condições de classe média em pseudoascensão o governo neoliberal da família Barros foi símbolo de progresso em 8 anos, suas lágrimas não me comovem. Porque o que me comove são as lágrimas daqueles que nascem e crescem sem qualquer perspectiva para alimentar os mesmos anseios que você. É sobre essas pessoas que estamos falando e não sobre você.
Quando você esperneia pelos mil reais gastos todos os meses com a mensalidade da escola ou do cursinho dos seus filhos e que agora se revelam “inúteis”, eu não me comovo. Porque o que me comove são as milhares de famílias inteiras que se sustentam durante um mês com metade da quantia gasta em uma dessas mensalidades. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.
Quando você argumenta que, na verdade, seus pais só pagam seu cursinho porque trabalham muito ou porque você ganhou um desconto pelas boas notas que tira, eu não me comovo. Porque o que me comove são as pessoas realmente pobres, que mesmo trabalhando muito mais do que os seus pais, ainda assim não podem dispor de dinheiro nem para comprar material escolar para os filhos, quem dirá uma mensalidade escolar por mais barata que seja. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.
Quando você vocifera aos quatro cantos do mundo que todos têm os mesmos direitos, que a sociedade é igualitária, e que só dependem das pessoas por meio do trabalho, e do esforço individual o sucesso financeiro. Na verdade, eu sinto uma leve vontade de desistir da raça humana, eu confesso, mas só para manter o estilo do texto eu preciso dizer que o que me comove é olhar para as periferias da cidade e identificar que as condições de subsistência e existência não são as mesmas de quem nasceu nos bairros “nobres”, que a educação não é a mesma, que o acesso a saúde não é a mesma, e que essa conversa de “não pode dar o peixe, tem que ensinar a pescar” é conversa de vermes da classe média em pseudoascensão social, que acreditam que um dia vão se tornar donos dos meios de produção e do capital. É conversa de quem acredita que se alguém esta andando de Audi é pelo simples fato de ser um gênio, e despreza o fato de por nascença não necessariamente precisar trabalhar para ter um Audi.

Quando você defende a candidatura do Pupin, e diz que ele é honesto, e que a oposição esta tentando derrubá-lo pelo fato de ter tido sua candidatura sob judice, e quase ser impugnado, e chora dizendo que ele junto com o Silvio Barros devem continuar a mudança, eu não me comovo. Na verdade, eu sinto ânsia de vômito ao perceber o quanto a classe média em pseudoascensão social é egoísta, covarde e traiçoeira, o quanto pensa no próprio umbigo. Esta conversa não é sobre seus interesses particulares, não é sobre o que é melhor para o seu desenvolvimento individual, ou o desenvolvimento dos seus negócios, não é sobre a construção de novos shoppings ou centros comerciais, não é sobre a derrubada de patrimônios históricos como a antiga rodoviária para transformar em estacionamentos para que você tenha mais conforto ou dê mais conforto ao ritmo de consumo maringaense. Essa conversa é sobre uma classe explorada que sai de madrugada de suas casas, de bicicleta, ou de ônibus, que são obrigados a deixarem seus filhos o dia todo em creches, em programas sociais, e que ao final do mês são humilhados com salários de menos de 600 reais, e que se veem obrigados a decidir entre comer, entre estudar, entre morar, por que não podem ter tudo. E ainda tem que ouvir, que só passam por isso por que não “correram atrás”.

Se a coisa vai ficar tão ruim assim se formos governados por partidos socialistas, ao invés de nos submetermos mais uma vez ao governo aristocrático da família Barros que passa a coroa ao príncipe do inferno Pupin, proponho então aos medíocres da classe média em pseudoascensão social que troquem de lugar com os moradores da periferia, que ganhem os péssimos salários que ganham que sejam discriminados nos shoppings, e nos bairros nobres por não trajarem roupas de grife, que não tenham acesso a educação privada, que não tenham mais planos de saúde e tenham que enfrentar as filas do SUS, que fiquem a mercê da falta de dignidade humana e do trafico de drogas, e depois disso tudo me diga qual o tipo de governo buscará para resolver seus problemas, isso sem mencionar a massificação da ideologia burguesa que estará penetrando sua mente. Ah, você não pode esperar tanto tempo? Então, porque os pobres podem esperar até mais, já que todos sabemos que o problema da desigualdade social no Brasil não é algo que pode ser resolvido de ontem pra hoje?
Então, por favor, reconheça o seu privilégio de classe média em pseudoascensão social e tire ele do caminho, porque essa conversa não é sobre você. Já existem espaços demais no mundo que têm a sua figura como estrela principal, já passou da hora de mais alguém nesse mundo brilhar.

2 comentários:

  1. Queria te parabenizar pelo texto. Eu sou a autora do original e encontrei o seu blog pesquisando respostas que o meu texto teve internet afora. Achei sensacional a sua apropriação. Obrigada pelo uso criativo das minhas palavras e pelo novo texto que nasceu. Abraços.

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    1. Eu que tenho que agradecer pelo texto fantástico que escreveu e que me proporcionou reflexões. Pequei em não por referência ao seu texto aqui no Blog, mas já compartilhei teu texto algumas vezes na rede, facebook, twitter, essas coisas. Fico feliz que tenha gostado dessa versão. Eu achei a tua lógica de escrita sensacional, e achei que caberia pra tantas outras coisas, que me senti no direito de reproduzir. Abraços

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