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domingo, 23 de janeiro de 2011

Eu não gosto do “bom” gosto


Depois de ter escrito o texto do ultimo post me deparei com o texto escrito por Jean Wyllys em seu site que por incrivel que pareça trata do mesmo assunto, porém com muito mais argumentos, profundidade e por que não dizer, intelectualidade, mas não aquela de mesa de bar.

POR JEAN WYLLYS
É só começar uma nova edição do Big Brother Brasil para aquele coro formado por “intelectuais“ de mesa de bar e pelo baixo clero universitário comece a entoar sua cantilena repetitiva e entediante contra o programa, seja na mesa do bar propriamente dita, seja em segundos cadernos e sites que se ocupam do entretenimento televisivo. Os membros desse coro não só demonizam o BBB – com o argumento de que este “idiotiza as massas” porque não tem “conteúdo” – como fazem questão de se mostrar incríveis e orgulhosos de si por não assistirem ao programa; costumam se sentir seres humanos melhores por consumirem “bons livros” e “belas artes”. O coro não só constrói hierarquias de gosto e de consumo cultural como as trata como algo “natural”. Não, elas não são naturais, da ordem da natureza. Da ordem da natureza é a imobilidade das pedras, pois mesmo a cor dos olhos e a textura dos cabelos das pessoas não são mais naturais desde que se inventou a lente de contato colorida e a tintura-creme para chapinha. Hierarquias de gosto e de consumo cultural são construídas pelos homens; são um dado da cultura (cultura entendida como modo integral de vida e não como ilustração ou matéria de segundo caderno de jornal, que é como o senso comum e alguns “intelectuais” entendem o termo “cultura”). Logo, quem está por cima ou no poder vai definir seu consumo cultural como legítimo ou de “bom gosto”, estigmatizando, segundo seus critérios, o consumo de quem está por baixo como “inferior”, de “mau gosto” ou “menor”. E não se trata de uma mera distinção cultural apenas. Trata-se, antes, de justificar privilégios sociais e econômicos nesse mundo capitalista: “é justo que só eu e os meus possamos viajar para Nova York, pois só nós sabemos apreciar as belas artes do Museu de Arte Moderna; somos, portanto, seres humanos melhores que aqueles que se perdem na programação televisiva”. Quem está por cima e demoniza o consumo cultural dos pobres, esquece-se ou finge se esquecer de que uma viagem a NY para visitar o Museu de Arte Moderna custa caro! Esse argumento de quem está por cima é, na verdade, um ardil, pois essa gente sabe que no dia em que o consumo cultural for realmente democratizado; no dia em que o povão tiver acesso aos bens de consumo das elites, acaba-se a distinção cultural e a hierarquia entre as pessoas. Essa gentalha que se acha inteligente por desprezar publicamente o consumo das massas é, portanto, ardilosa e hipócrita (quer dizer, algumas reproduzem essa mentalidade até sem se dar conta, porque nunca pararam para se questionar). E olha que estou me referindo apenas àqueles que realmente consomem belas letras, belas artes, belas músicas, e não àqueles que fingem consumir, perdendo o tempo em mesas de bares criticando a tevê e a cultura de massa.
Com os filósofos franceses Michel Foucault e Michel de Certeau, aprendi que há resistências para toda disciplina (ou tentativa de sujeição ou produção de “corpos dóceis”). Todo consumo, ou toda leitura, ou toda recepção é feito num contexto; a partir de uma história de vida. Por isso, significados ou sentidos são produzidos mesmo nesse momento da recepção, por mais que os emissores das mensagens pretendam controlar os significados e, assim, manipular os receptores. Durante muito tempo, os intelectuais desprezaram essas resistências, esses desvios produzidos pelos subalternos. Durante muito tempo, os “iluminados” se outorgaram o papel de definir o que é melhor para a “massa ignara”. Durante muito tempo, esses “iluminados” desprezaram as soluções e arranjos elaborados pelas massas para lidar com a falta e a opressão cotidianas. Os “iluminados” nunca pararam para pensar que “se milhões de pessoas trocam um comício por um último capítulo de novela, isso não pode ser considerado um mero equívoco”, como disse outro filósofo francês, Jean Baudrillard. Os “iluminados” nunca repararam que os diferentes grupos que constituem as audiências podem se politizar a partir do consumo de programas televisivos. E só recentemente, no Brasil, pesquisas de recepção derrubaram o discurso dos inimigos da telenovela, que afirmavam que a mesma era um “ópio” que “despolitizava” e “idiotizava” as massas. Pesquisas que deixaram claro como os sentidos que as massas podem produzir a partir da telenovela podem ser mais relevantes politicamente do que imaginam os “iluminados” – os mesmos que, hoje, trocaram de objeto e “demonizam” o BBB. A edição de que participei teve um impacto político-cultural sem precedentes no imaginário popular; e não sou só eu que o digo: no último censo feito pelo IBGE em que apareceu um aumento no nível de tolerância à homossexualidade no Brasil, a principal explicação dos consultados para essa tolerância foi a minha presença/performance/discurso no reality show. E alcançar esse impacto político positivo foi um dos motivos de eu ter me lançado naquela aventura depois de anos dedicados ao jornalismo e à educação superior. Sou um discípulo de Antonio Gramsci!
Quando alguém não tem argumentos teóricos sólidos e fala só a partir do senso comum produzido pela “intelligentsia” de segundo caderno de jornal diário; quando alguém desconhece a maior parte da produção intelectual recente sobre os meios de massa e as novas tecnologias da informação, só pode cair em crítica óbvia e ressentida às celebridades. Graças a Deus não sou celebridade. Já pensou ter de conviver com essa gente não premiada pela vida vibrando contra minha pessoa? Ainda bem que não sou celebridade! E é preciso que a “intelligentsia” de segundo caderno se aprofunde na proposta da Pop Art, para não ler como negativo aquilo que Warhol pensou como algo positivo: a democratização do star system!


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