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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Eu não sabia. E você?

 Ivone, a mulher do apito, das manias e do cafezinho
A deficiência mental e as manias não impedem que ela seja querida por pessoas que conquista nas ruas de Maringá


Bem antes do dia clarear, Ivone Pires já anda pela casa, conversando alto com o resto da família que ainda dorme, às 6 horas já está pronta para sair e, no máximo, até 6h30 já vai para a rua. Chova ou faça sol, essa é a rotina de segunda-feira a sábado e toda a vizinhança saberá que ela já está na rua quando ouvir o trinado de seu apito. Nas seis ou sete horas seguintes, seu apito será ouvido (e reconhecido) em diferentes pontos da cidade e por volta das 14 horas chega de seu volta ao bairro de onde saiu, o Jardim Aeroporto. À tarde assiste tevê e por volta das 20 horas já está dormindo para repetir tudo na manhã seguinte.
Sempre sorrindo, apitando e cumprimentando pessoas nas ruas, entrando em estabelecimentos para iniciar conversas que ela nunca termina, Ivone Pires, de 33 anos, é a mulher do apito, uma das figuras mais conhecidas das ruas de Maringá. Da mesma forma que a cidade a reconhece, ela também conhece muita gente, principalmente se a pessoa trabalhar em algum estabelecimento que serve cafezinho. Se ela não sabe o nome da pessoa, logo inventa um apelido ou chama de 'Véio'.

“Ela é pontual, chega na hora em que estou abrindo o bar, fala, fala, fala, toma um café e segue em frente”, conta a comerciante Vanda Pires, proprietária de um bar na esquina da Avenida Brasil com a Rua Henrique Dias. Cerca de 100 metros adiante, Ivone entra em uma padaria, chama todas as atendentes pelo nome, conversa com fregueses (geralmente com dois ou três de uma vez), toma mais um café, ganha um salgado e sai sem terminar as conversas.
De bar em bar, padaria em padaria, café em café às 9 horas ela já está apitando no quarteirão mais antigo do Maringá Velho, aquele onde nasceu a cidade e ela parece conhecer todo mundo – e todo mundo a conhece. “A gente até brinca dividindo a manhã em antes ou depois da passagem da mulher do apito”, diz o farmacêutico Luiz Carlos Pires, que recebe infalivelmente sua visita todos as as manhãs. “Ela tem liberdade para colocar apelido nas pessoas”, continua Pires, lembrando que um proprietário de oficina na divisa do Maringá Velho com o Fim da Picada é chamado por ela de vagabundo “e ele ri, nunca reclamou”.
“Todo mundo gosta dela”, explica Carlos Machado, que trabalha em uma loja de artigos country. “Ela chega, brinca com as pessoas e vai embora sem ofender ninguém, ela é carismática”.
A mulher do apito tem algumas manias incompreensíveis. Sai de casa sempre usando uma blusa de lã escura com capuz, que ela cobre a cabeça, de modo que sua figura pode ser reconhecida à distância – mesmo que ela não apite. Também carrega sempre um saco com livros e cadernos, pesando aproximadamente 10 quilos. A blusa, segundo ela, a protege do sol e da chuva. Os livros e cadernos ela usa para “ler” e “escrever” quando para nos pontos de ônibus para descansar.
A mulher do apito sobe para o Maringá Velho sempre pela calçada da direita, volta pela da esquerda, vira na Avenida Pedro Taques e vai até o Jardim Alvorada, percorre várias ruas e volta para casa. Quando está a fim de andar um pouco mais, vai apitando até o Posto G10, na saída para Astorga.
Ivone, filha do casal de pioneiros Julia e Derbi Pires, ele caminhoneiro aposentado, vive com os pais e três irmãos em uma casa do Jardim Aeroporto, a mesma casa em que nasceu. Ainda pequena os pais perceberam a deficiência mental, mas ela chegou a frequentar escola, aprendeu a ler um pouco, frequentou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), mas foi nas ruas que aprendeu a se virar. O apito famoso é ensinamento das professoras da Apae e serve para alertar motoristas sobre sua presença. Embora caminhe entre 20 e 30 quilômetros a cada dia, cruzando o trecho mais movimentado da cidade, ela só foi atropelada uma única vez e nem foi em Maringá. Ela tinha ido a pé a Sarandi comprar um apito novo e acabou atropelada no centro da cidade.

Suas saídas de casa não preocupam mais dona Julia e seu Derbi, primeiro porque reconhecem que Ivone sabe se defender, segundo porque a saída é uma necessidade tão forte para a moça quanto comer ou beber cafezinho. “Se ela não sai, fica nervosa, começa a apitar dentro de casa, a gente sente que ela sofre como se estivesse numa prisão”, comenta o irmão Dário.
A mulher do apito diz que gosta de caminhar, ver pessoas, assistir tevê à tarde e ouvir músicas de Zezé de Camargo e Luciano. “E aí, Véio. Eu vou sair no jornal? Vai sair minha foto? E o meu apito? Por que eu vou sair no jornal? O que eu fiz? O que você perguntou pro meu irmão?”, perguntou ela de enfiada, virou as costas, apitou e seguiu em frente sem esperar nenhuma resposta.

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