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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Engano ou racismo internalizado e invisibilizado?



Na ultima semana Michel Teló em solidariedade a onda de comentários racistas a Maju que apresenta as condições e previsões climáticas no Jornal Nacional, resolveu pintar metade da cara de preto.

Existe algum problema nisso?

Para a maior parte da população que se considerou #TodosMaju não há problema algum nessa manifestação, por que Michel Teló é um menino bom, e diante de sua índole, jamais faria algo racista.

A verdade é que ser racista não é necessariamente um engano, o racismo esta entranhado no imaginário e nas ações sociais. O racismo foi construído historicamente e se manifesta muitas vezes em nosso subconsciente, por tanto a maioria da população entende que ser racista é algo negativo e condenável na sociedade, e por saber disso sempre que comete uma ação racista nega veementemente, afinal de contas, quem quer ser considerado racista?

Assim como Michel Teló a população massiva não consegue compreender por que um homem branco pintar a cara de preto para se manifestar contra o racismo, nada mais é que o próprio racismo externalizado com tudo o que a de pior. É preciso entender aqui que não se trata de condenar Michel Teló pela sua atitude, e não se trata de procurar cabelo em ovo, ser implicante, ou ver racismo em tudo, como a maioria da população insiste em dizer, aquela velha história dos negros vitimistas.

A questão vai muito além da ação particularizada, ela se estende por exemplo aos comentários que trazem justamente a reportagem sobre o caso de Michel Teló na Folha, todos considerando um exagero dizer que a ação reproduz e reforça o racismo, e tratando os negros como vitimistas e extremistas, como quem diz, “negro vê racismo em tudo, negro não quer igualdade, negro quer privilégios”. É preciso dizer que negro não vê racismo em tudo, negro só vê o racismo que ele mesmo sente, que ele mesmo sabe e conhece desde quando ele nasceu, por que a cor da pele dele, não é uma tinta que sai com água, faz parte dele, e essa mesma cor de pele foi motivo de muito sofrimento diante do racismo, como o que passou a apresentadora da previsão do tempo Maju, ou já nos esquecemos do racismo que ela sofreu por conta da cor de pele dela?

A maioria da população não esta acostumada a problematizar o racismo, muito pelo contrário, para ela a simplificação e o reducionismo é a regra. O mesmo que pinta a cara de preto em manifestação contra o racismo, é o que diz que somos todos humanos e somos todos iguais, como se a ideia de que somos todos iguais fosse o suficiente para que efetivamente fossemos todos iguais dentro da sociedade. São os mesmos que dizem que o racismo acontece muito isoladamente, ou que para acabar com o racismo a gente precisa parar de falar dele, ou seja, os negros precisam silenciar-se, como sempre tiveram que fazer, nas senzalas, e nos quartos de empregados.

A população vê este caso de modo banalizado por que culturalmente a história do negro foi banalizada, foi tratada como desimportante. A escravidão já passou é hora de virar a página, dizem. Nas escolas muito pouco se estuda sobre a história e o papel dos negros na história do Brasil, tudo é visto do ponto de vista dos colonizadores e aristocratas, e deste modo, mesmo a maior parte da população sendo negra, e pobre ou classe média, vai reproduzir os discursos da classe dominante, que é o que ela aprendeu na escola.

A população não sabe o que significa o Blackface e pouco esta interessada em saber o que é isso, por que como eu disse anteriormente, para ela o fim do racismo depende justamente de não falar de racismo, então ela não esta disposta a estudar e a pesquisar sobre isso, para saber quais as influências disso na atualidade. O branco classe média esta menos interessado ainda em problematizar, pois ele não quer complicar, ele esta acostumado com os privilégios sociais de sua cor, e diante desses privilégios fica muito fácil reduzir o debate sobre o racismo, ao discurso do somos todos iguais, ou a pintar o rosto de preto e tentar promover campanha na internet.

Eu não vou falar sobre o Blackface e seu significado, quem quer saber que vá atrás, e quem não quer saber, a gente já sabe o por que. Além do que, existe uma coisa chamada emponderamento e visibilidade, quando um branco tenta liderar um movimento contra o racismo, ele está naturalmente reproduzindo aquilo que ele historicamente sempre fez, que é estar a frente, que é ter voz na sociedade, que é ter visibilidade, coisa que os negros nunca tiveram, e mesmo quando se trata de uma luta dos negros, brancos insistem em tomar a frente, como se soubessem o que é ser preto neste país. Ser preto neste país é muito mais que meia cara pintada num dia de sol. Ser preto neste país é fazer parte da maior população carcerária, é ser criminalizado, marginalizado, é ser perseguido nas lojas pelos seguranças, é ver a madame escondendo a bolsa em baixo do braço quando te vê, é ser abordado de forma violenta pela polícia e muitas vezes ser executado sem chance de defesa, por ela, ser preto neste país é ter menores salários, piores empregos, é ter sempre papel de motoristas e empregados nas novelas, é não ter representatividade nas grandes profissões, como direito ou medicina.

Michel Teló não é o culpado, é apenas o produto ou subproduto de uma sociedade racista, que nega se assumir enquanto tal. Uma sociedade que se constrói e se baseia na ignorância, na superficialidade, no reducionismo, na simplificação de tudo aquilo que ela não considera importante. Não é o negro que vê racismo em tudo, é o branco que finge não ver racismo em nada, por que o racismo não o afeta diretamente.



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