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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Vivendo a vida do "Pelo menos"



Este poderia ser só mais um ensaio sobre o conformismo e a aceitação das condições impostas pelo modelo societal vigente, ou poderia ser o enredo intrigante sobre um ser humano de vida vegetativa, imerso em um cotidiano sem sentido, tomado por uma eterna sensação de vazio. Poderia também tratar dos anseios e desconfortos reais, de pessoas reais, bem como personificações de tabelas e gráficos, que mensuram a miserabilidade humana, e como se constroem o que muitos chamam de ópio do povo.
“Melhor pingar do que faltar” justifica os salários miseráveis de diversas áreas profissionais, afinal, poderia ser pior, imaginou-se desempregado? Melhor que desempregado, é ser explorado dia após dia, melhor que ficar em casa sendo chamado de vagabundo, ou vadio, é ser explorado dignamente por uma vida inteira, tornando-se um ser desconexo, aleatório, que vaga como uma alma no purgatório sem saber ao certo o seu destino. Teme pelo inferno pós-morte, e vive o inferno na terra, como quem busca o paraíso prometido. Ganha pouco, mas “pelo menos” tem um trabalho, são injustiçados todos os dias na terra, mas “pelo menos” garantem seu lugar no reino dos céus.
Constatei muitas inquietações a respeito do não fazer nada, dizeres aterrorizantes como “Odeio ficar em casa sem fazer nada” ou “Não sei ficar em casa nas férias, não sei o que fazer”,  demonstram a falta de intimidade que temos com o ócio, e não poderia ser diferente, o ócio foi demonizado pelos proprietários do tempo, nos sentimos mal, infringindo uma lei quase que intrínseca, inculcada, internalizada, e digo mais, normatizada. Muito mais que heteronormativa, a sociedade valoriza o tempo que é produtivo, sendo assim de que serve o tempo que nada se produz na sociedade do consumo, do mercado e da coisificação do homem? Não tenho tempo de ver meus filhos, mas “pelo menos” deixo-os em tempo integral na escola, e “pelo menos” tenho um salário para dar de comer a eles. Veja, o “pelo menos” não conhece classe social, no entanto, tento me ater, ao “pelo menos” do qual eu realmente gostaria de falar. E este, justamente trata da desigualdade e da luta de classes. Tem a ver com, “Não tenho um carro de 800 mil reais, mas ‘pelo menos’ tenho uma moto velha que não me deixa na mão”.
Vivemos, nós mortais com uma indignação crônica, perto desse otimismo exagerado que leva a um conformismo estapafúrdio, não sou contra ser positivo, muito menos contra valorizar as boas coisas da vida, no entanto eu sou radical, extremista e irredutível, quando as frases e as situações ganham uma compensação que se correlaciona com uma infelicidade. É como, por exemplo, dizer a alguém que esta com câncer algo como, “pelo menos esta vivo”. Perceba que estar vivo para uma pessoa que esta com câncer, não pode ser uma compensação, por que desta forma se tivesse morrido eu poderia mudar a frase para “morreu, mas pelo menos nunca teve câncer”, é como trocar seis por meia dúzia, não muda absolutamente nada. Não tem nada a ver com pensar positivamente.
O fato, é que esse “pelo menos” torna-se uma constante na vida das pessoas, uma vida repleta de compensações baratas, das quais se vê obrigado a aceitar. E não reclame nunca, por que tudo pode piorar com certeza. A vida é precarizada de cabo a rabo, desde a educação com o “estudou a vida toda em escola pública, mas “pelo menos” é esforçado e passou no vestibular”, até o “roubaram a tua moto, mas ‘pelo menos’ te deixaram vivo”.  Quer dizer, agradeça por estar vivo, agradeça por existir, por que realmente, no mundo em que vivemos, pessoas como nós, pobres explorados até a exaustão não merecemos estar vivos, não merecemos conviver com toda essa gente que não precisa compensar absolutamente nada, essa gente que misteriosamente tornou-se dona de todas as coisas, de todas as terras, de todas as máquinas, de toda criação humana, da história e do próprio homem. “Pelo menos” inventaram o governo e o assistencialismo como mola amortecedora das articulações sociais, “pelo menos” a classe dos miseráveis, esta desaparecendo, eles subiram para a classe dos moradores de rua, um grande progresso. “Pelo menos” criaram praças e clubes esportivos para divertir, “pelo menos” no centro da cidade o prefeito faz bem feitorias, “pelo menos” nós sabemos escrever o nosso próprio nome, “pelo menos” temos o direito de eleger nossos representantes, “pelo menos” eu não votei nesse ladrão, “pelo menos” minha consciência esta tranquila, “pelo menos” eu sou feliz trabalhando, chegando a casa com o sol já posto, assistindo televisão e tendo uma noite de sono para repetir tudo isso no próximo dia, “pelo menos” tenho Deus no coração. A policia mata um inocente, “pelo menos” cria provas e torna o inocente criminoso, batem antes de perguntar, “pelo menos” pedem desculpas.
O “pelo menos” reflete a coação do homem frente ao poder invisível e visível que os homens de negócio imprimem em nossas vidas. Somos coagidos a aceitar as condições mínimas, para não viver sem condição alguma, é um tal de “afasta de mim este cale-se” que não termina nunca. 

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