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terça-feira, 5 de abril de 2011

UM ABISMO, ALGUNS ENTULHOS, E UM CAFÉ BEM AMARGO.



Não, nada dura para sempre. Nem os bons, nem os maus momentos, o que ficam são apenas memórias, traumas, lembranças, sabores, saudades, que podem perdurar por um longo tempo, período, espaço, após a abrupta rachadura no solo firme, mas que o tempo insiste em amenizar, esmaecer dentro do arquivo de imagens de tudo aquilo que um dia fez parte do nosso ser. Quando digo nosso, refiro-me impreterivelmente a relação que os amigos, amores, constroem em conjunto, e desgastam isoladamente, a cada dia, com um entulho diferente, que para alguns talvez torne-se uma montanha de entulhos como obstáculo irreversível, a princípio. Quando nos assentamos à beira do abismo em pleno por do sol, eu de um lado e você de outro, percebemos o quão vemos as mesmas coisas, o sol é o mesmo, o fundo do abismo é o mesmo, o horizonte é o mesmo, o que muda é a distância inevitável entre nós, inatingível, inalcançável. Esta inclinação que nos põe em pontos opostos, já teve seus dias de solo plano, seguro, e confortável, e até chegamos a acreditar que tremores não seriam capazes da precipitação inevitável e quase antinatural da qual nos sucumbimos, não tão alegres assim, pois resguardamos numa caixinha de jóias, as nossas fotos de quando éramos felizes, os nossos “eu te amo” ainda se encontram espalhados por ai para quem quiser ver, e todos vêem, e não compreendem que findou-se numa bela e longa erosão, abismo, vácuo, aquela velha e nova relação de fraternidade que veio das profundezas das afinidades humanas, aquelas que parecem te ligar ao ser humano distinto, como se fosse um irmão de sangue. É impossível apagar aquilo que foi importante na tua vida, mas é possível tornar tudo aquilo uma doce lembrança, basta ter a sensatez de ir para o outro lado do abismo, antes que os conflitos derrubem alguém de lá, mesmo o lado sendo o mesmo. E foi nesse viés que se deu e que se dá qualquer tipo de relação, onde mais de uma pessoa estão inseridas, os conflitos são quase que um brinde, é como tomar um café amargo, e sentir na garganta aquele arranhado quente, mas conflitos partem do principio de que a realidade é composta por contradições, e se constitui de um movimento espiral, assim são as relações humanas, elas tendem a não se dar de forma tão objetiva e racional, então ser amigo, ou ter amigos é como um mal necessário, sabe-se que a qualquer momento alguma dor vai surgir, sabe-se de uma perda, de uma decepção, de um desencontro, de um desentendimento, de um ou mais desacordos, mas nada disso é o suficiente para impedir que se construa uma amizade, verdadeira ou não, fundamentada ou não, alicerçada ou não, infinita ou não, por que não dá pra prever o desenrolar desse tipo de relação, afinal, só nos relacionamos com pessoas das quais nos identificamos, e que se identificam verdadeiramente conosco, isso se dá no que tange as características constituintes do ser humano, que se assemelham entre si, vendo uns nos outros, são capazes de praticar a alteridade com indivíduos específicos, estes que são infracionáveis e sendo assim, cada amigo que desejamos que faça parte de nossa história, parte, de uma necessidade de que seja uma amizade interminável, é o que todos querem, é como casar, ninguém casa pensando em separar(só as vezes), e  nesse sentido percebemos que mesmo assim os casais separam-se, por que as condições materiais, a dada realidade vai interferindo nos ideais, nas práticas, nas atitudes, e isso só é possível enxergar quando se aprofunda numa relação, ou seja, quando se é realmente um amigo, que se vê com freqüência, que se tem mil assuntos para tratar, onde a intimidade ganha proporções imensas, a probabilidade dos conflitos ficarem em relevo aumentam, então os entulhos aumentam, então o abismo aumenta, e nessa turbulenta movimentação de diferentes sentimentos, nós, autores de nossas próprias relações, é que temos o papel de decidir como lidar com o processo de distanciamento de idéias, de preferências, de assuntos, e o que nos cabe, é terminar aquilo que te fez tanto sentido, e ainda se mantêm gravado nos álbuns de fotografia, com o mínimo de respeito, e nesse sentido, o abismo pode ser a melhor forma, por que, por mais que estejamos incomunicáveis um com o outro, ainda posso te ver, e saber que esta bem, mesmo a distancia impedindo o diálogo, ainda olho para ti, com os mesmos olhos, com a mesma importância, que não se apaga, independente de qualquer entulho entre nós. Assim, respondo, que não, nada dura para sempre da forma exata como ela é, mas dura o suficiente para saber que é preciso mudanças para não deixar que o que passou se vá em direção ao vazio, onde nada se guarda, e tudo se transforma em lixo. E somente por saber disso, que às vezes, a minha escolha é manter esse abismo, esse entulho, e esse gosto amargo de café na boca, por que só assim eu ainda consigo relembrar saudosista nos retratos tirados, nos encontros marcados, nos desejos ousados, o quanto fomos felizes.

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