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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O ser convertido.


Ai, em um belo dia de sol, o infeliz, mal amado, sem qualquer resquício de personalidade, atribui a algum acontecimento que parta de uma coincidência, muito frequente dentro do mundo real, a ação de forças divinas e sobrenaturais, e resolve converter-se. Pelo que me parece, esta conversão vem nos últimos tempos ou se tornando frequente, ou tendo mais visibilidade, não sei ao certo. Esta conversão normalmente vem de alguém que teve em parte dos casos, motivações semelhantes a minha para seguir dentro da realidade concreta, que é o oposto de crendices e atribuições das causas factuais e reais a deuses, espíritos, ou forças superiores. Estas motivações partem do mesmo ponto, que trata justamente do sentimento de rejeição a forma como a sociedade esta constituída. No entanto, o caminho posterior a essa concepção de sociedade, é que toma rumos com diferenças abissais. Rejeitar a sociedade como esta constituída deveria motivar ações concretas e inteligentes rumo a transformação da mesma sociedade, e essas ações são ações humanas, e não dependem de orações, muito menos de pensamento positivo, ou intervenção de um ser superior e divino. Entretanto, o ser convertido em luz divina crê que, a sociedade não tem mais jeito, que o mundo deve ser destruído, para que ele dotado de toda sua bondade e benevolência possa gozar do paraíso prometido pelo teu deus. Com lucidez, a diversidade religiosa poderia ser de certa forma o enriquecimento cultural de um povo, suas danças, suas crenças, suas tradições, suas comidas, contudo, o que temos batendo na porta, é um tipo de ser humano ordinário e cretino, que no auge de sua covardia, depois de ter usado e abusado das coisas “mundanas” como dizem, tem a pachorra, de se dizerem convertidos, e pior, alucinados com suas novas condições bovinas partem numa cruzada bíblica, arrebanhando mais imbecis para compartilharem dessa nova vida, que caracterizam como voltada para deus e seus mandamentos bíblicos. No decorrer dessa nova vida, já imbecilizados em demasia, servem sem sombra de duvidas, a pastores com ideologias tão ordinárias e cretinas quanto sua própria conversão duvidosa. Tornam-se volume, massa de manobra e financiadores de interesses políticos e do jogo de poder. Assim aparecem como um obstáculo para a construção da liberdade, da igualdade, da diversidade e do senso critico. São instrumentos de disseminação de ódio, de ideologias segregacionistas, da hegemonia burguesa, e sequer se dão conta disso. A eles não interessa o salário duvidoso do pastor, não interessa o acumulo suspeito de riquezas das igrejas, por que já se perdeu qualquer capacidade de questionar a realidade. O que restou, foi um desejo incontrolável de seguir direto numa bola de fogo ao santo iluminado e abençoado paraíso prometido. Não interessam as dores e injustiças da terra, o que importa é sua salvação individual. Ele até tenta converter os outros com um discurso profético de que deus esta voltando, e caso não o ouça se arrependerá eternamente queimando no fogo do inferno. Curioso como essa bondade dele se contradiz em suas atitudes discriminatórias dentro da sociedade. O ser convertido se sente numa guerra, se sente perseguido por suas convicções religiosas, convicções essas, tão fugazes quanto à chama de um fósforo aceso. Ele alega que a constituição lhe garante direito à liberdade de expressão, e confunde liberdade de expressão com liberdade de ser imbecil, liberdade de ser cretino, liberdade de ser cínico, liberdade de ser covarde, liberdade de professar o ódio e o preconceito. Ai, com toda sua falta de capacidade de raciocínio, se encantam com discursos de pastores que por toda vida se empenharam em enganar, em ludibriar imbecis sem personalidade, buscando sentido para suas vidas vazias. Um pastor com uma bela oratória, eficaz em sua persuasão, retira a credibilidade da ciência, da lógica, da realidade, daquilo que é fato, enquanto da sentido a bíblia, com suas parábolas anacrônicas. Enquanto a ciência não se levantar, firmando suas concepções de modo contundente e popularizado, enquanto não se enraizar a cultura da pesquisa aprofundada, da investigação dos fatos, enquanto não houver uma estratégia de desmistificação dos paradigmas já cristalizados na sociedade, as conversões não cessarão, pois o medo da realidade abre as portas para um abraço forte na ignorância.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O susto antilaico na Câmara Municipal de Sarandi e o corpo estranho na boca do presidente.


Confesso que por um momento me senti na homilia, confesso também que a homilia foi mais longa que a seção. Foi um susto conceber aquela cena inóspita diante do crucifixo pendurado na parede central daquela casa de leis. Confesso que me senti ultrajado, e quando não muito educadamente pediram que todos levantassem para fazer a leitura de um trecho bíblico, o ultraje se transformou numa imposição arbitrária de dogmas cristãos aos presentes. Ora, por que diabos insistem com essa patacoada de entenderem que eu tenho que me submeter a qualquer que seja a religião em uma instituição pública que deveria ser laica?

Ridículos seria uma ótima definição para os vereadores presentes na seção, por que tivemos alguns ausentes caso os caros cidadãos não saibam. Os vereadores entraram mudos e saíram calados, uma afronta a inteligência dos presentes, uma afronta a quem os elegeu para que se posicionassem de preferência em favor da população, vereadores análogos a fantoches inanimados, ocupando lugar de gente que tem voz e conteúdo pra falar. Vereadores tão imbecilizados quanto seus humildes eleitores, que sem cérebro se portam como capatazes dos senhores da cidade.

O oportunismo barato e sujo saltava os olhos em discursos amistosos como o de Nildão, tentando convencer os presentes que atender a reivindicação naquele momento seria prejudicar todos os outros servidores. Até tentou se fazer aberto ao diálogo com a população, engatando um cinismo que mesmo o presidente da câmara resolveu adverti-lo para focar na pauta. Rafael o presidente da câmara, estava com cara de poucos amigos, deve ter sido muito difícil acordar cedo em pleno sábado para seção, se era medo ou mau humor, não ficou muito claro, mas apressou-se em aprovar o que estava em pauta na seção. O que me parece, é que além de imbecilizados, alguns dos vereadores costumam falar com algum corpo estranho na boca, não foi fácil entender os balbucios dos senhores da casa de lei. O fato é que três projetos foram aprovados em poucos minutos, tão rápido quanto a oração inicial, sem qualquer discussão, sem qualquer parecer dos vereadores presentes, como se a função deles fosse a de sair de casa, e aprovar projetos o mais rápido possível, para voltarem a não ter o que fazer. O presidente da câmara finaliza a seção numa velocidade tão grande, quanto o corpo estranho que carrega na boca, que o impede de ter uma boa dicção na hora de falar, se levanta como se tivesse fugindo de algo, e meus caros, não se iludam, ele estava. Os vereadores eleitos e reeleitos fogem da raia não é de hoje. Fingem diplomacia, elegância e ética, como fingem serem cristãos.

Diante de assuntos polêmicos, que afligem ou deveriam afligir toda a população sarandiense, os vereadores se omitem, tratam o assunto com desimportância, como se não lhe dissessem respeito. Como ignorar as condições de precarização e sucateamento da educação no país, agora tão próximas, no próprio município? O descaso com os pilares da dignidade social não vão bem faz muito tempo por aqui, saúde, educação e segurança há muito não dialogam, há muito não recebem atenção real do governo local. Segue a olhos nus, o clientelismo e obras eleitoreiras que já me cansei de mencionar, asfalto, rebaixamento de iluminação pública, “revitalização do centro”, e, no entanto a grande massa ainda não entendeu, ainda não sentiu, e coaduna com o pensamento propagado pelos senhores políticos, que os problemas da administração, não passam de meras acusações infundadas de opositores políticos. Os últimos acontecimentos relacionados a desvio de verba no processo licitatório na educação não foram suficientes para botar na cabeça destes parasitas eleitos que o buraco é mais em baixo. E sabendo dos desvios de verba na educação, logo os professores se lembraram do ínfimo salário que ganham pra sobreviver, das escolas desestruturadas, da falta de professores por conta dos baixos salários e das péssimas condições de trabalho, das mil desculpas para o não reajuste desse salário, e o que fica é uma cara de palhaço, depois de ouvir tantas mentiras, tanto cinismo, colaborando com o caos social em que vive este município. Pois não se enganem, essas condições criadas são as condições que estabelecem a relação com todos os outros ambitos sociais. A falta de educação aqui gera a fala de dignidade ali, e sem dignidade, sem ter o que perder, a violência se inicia logo na adolescência, por isso sobem os índices de violência na cidade, por isso tantos jovens morrendo. Os motivos precedem uma política assassina, predatória, conservadora, cheia de ranços da corrupção, e esta situação não vai ser um caso isolado, como irão alegar. Há de se estender, se as investigações continuarem, se a oposição continuar organizada mobilizando a população. Por isso alguns grupos resolveram se organizar, e escreveram um carta para informar a população sobre o caso. Segue logo abaixo.



Caos na educação de Sarandi

Passamos por um momento difícil em nosso município. Talvez você não saiba mas o índice de avaliação (IDEB) escolar de Sarandi é menor de toda a região. Por que isso ocorre justamente em Sarandi?

Talvez tenhamos algumas respostas: Os professores de nossos municípios recebem os menores salários desta região. Enfrentam dificuldades ainda com a falta de material de trabalho, formação e horas-atividade. Faltam professores para as aulas educação física, artes e para o reforço escolar. Enquanto isso a violência avança dentro de nossas escolas.

Assim, perguntamos, o que nossos representantes estão fazendo para enfrentar esta situação? A educação pública e de qualidade é um direito para todos, porque, então, não ensinamos esportes, artes, leitura, escrita, história, números com qualidade suficiente?

Nos últimos dias o GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) aprendeu pelo menos dois empresários do ramo da educação, um funcionário público e o próprio secretário da educação, o conhecido Professor Manuel, ex-vereador e ex-diretor da Escola Estadual Jardim Panorama. A acusação que pesa sobre eles é que estariam envolvidos num esquema de fraude de licitação em que seriam desviados centenas de milhares de reais para os bolsos privados.

Fica fácil, portanto, compreender porque Sarandi possui o menor índice educacional da região, os piores salários dos professores e servidores e porque nossas crianças enfrentam um sistema escolar tão precário.

Receamos que esta seja apenas a ponta do iceberg. Ora, se há desvio de recursos na educação porque não haveria em outras áreas? Como exemplo, podemos citar os problemas na saúde e na qualidade asfalto e na própria falta dele.

Senhores pais, não podemos assistir o futuro de nossos filhos serem assaltados dessa maneira. Vamos nos unir. Precisamos organizar uma grande frente de luta contra a corrupção na educação de nossa cidade e exigir fiscalização de todas as contas públicas. Vamos à luta!

Próxima reunião – terça feira, dia 22/01/2013, Local: Escola Estadual Irmã Antona, 19 horas.





Associação de Moradores do Jardim Independência II e Panorama

Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL)

APP de Luta e Pela Base - Oposição Sindical

CSP CONLUTAS / Oposição sindical Servidores em Luta – Sarandi / Diretório Central dos Estudantes – Gestão Movimente-se UEM / Conselho de Segurança do Município de Sarandi





Visita ao Dr. Ryan, à cachoeira e a igreja.
2° capitulo

 
A chuva havia sido muito forte a noite passada, o dia amanheceu nublado. O radio relógio gritou as 07h00min horas, virou-se para o lado sem conseguir abrir os olhos, mas o berro do despertador soou violentamente por dentro de seus ouvidos, os olhos saltaram quase que instantaneamente, levantou ainda tonto, e caminhou até o banheiro, pelo corredor ainda desfigurado, topou com sua mãe.

- Meu garotão, se apresse!

- Ah, pode deixar, nunca chego atrasado ao colégio.

Após lavar o rosto e escovar os dentes, desceu para tomar café, sentou-se e preparou seu cereal, comeu rápido, juntou a mochila nas costas e foi saindo enquanto sua mãe dizia - Volte direto para casa, tem consulta com o Dr. Ryan - sem responder continuou andando.

Caminhando pela floresta, o atalho se esconde numa manhã nublada, mesmo assim ele segue, as folhas secas e úmidas pelo chão, o orvalho corre pelas folhas verdes, ele aperta o passo, a floresta nunca esteve tão misteriosa e sombria. Avista Richard esperando no portão, entram juntos, e a primeira pergunta é sobre o time de futebol, Edward tenta se desviar do assunto, e diz não lembrar do assunto, acha melhor esquecer. Mesmo assim, seu amigo insiste na possibilidade de se incluírem, de parecerem legais. Quando entram na sala de aula ainda discutindo o assunto, são surpreendidos por Presley que ouve a conversa, e ironicamente da um recado aos dois – Então as duas mocinhas querem entrar pra o time? Pois fiquem sabendo, o time não é pra idiotas! – Os dois se entreolharam, e acharam melhor não aceitar provocações. Presley não deixa por menos, caminha até Edward, e dando tapinhas amistosos nas costas dele e diz – Ora irmão, entre no time, mostre que você pode ser fracassado em mais alguma coisa na tua vida- e volta sorrindo pro lugar.

No fim da aula, os dois saem apressados, e o assunto gira insistentemente por parte de Richard sobre o futebol, e na tentativa de convencê-lo diz- esta será nossa única chance de provarmos que somos melhor que aquele boçal do Presley- Edward parou, pensou e disse - Ele faria de tudo pra que não conseguíssemos entrar pro time- Saindo pelo portão da escola já se despedindo seguiu dizendo- Depois falamos disso, tenho que ir.

Na cabeça dele o problema maior a resolver era o temido médico que sua mãe insistia em levá-lo. Chegando em casa, a ideia era fingir que havia esquecido, disse um “oi” maroto pra mãe e foi subindo pro quarto, não colou, logo sua mão o lembrou da consulta, ele sequer olhou pra trás, apertou os passos e continuou, visivelmente irritado. Ele não sabia exatamente o que acontecia com ele, imaginava claro que algo não estava bem, ou pelo menos, algo estava fora do normal, e mesmo consciente disso, internamente parecia gostar disso.

Já dentro do carro a caminho do médico, emudecido, observando o céu correndo sobre ele, ficou a pensar – Quando somos crianças nossos maiores sonhos vão dos super poderes, voar, visão de raio – x, invisibilidade, teletransporte, lançar raios pelas mãos. Qual criança nunca sonhou em ser um super-herói? Salvar o mundo de super vilões. Engraçado isso do mundo se dividir numa história entre o bem e o mal, entre herói e vilão, por que por todos os lados que olho só vejo potenciais vilões, não sei se consigo identificá-los com certeza. Na minha vida, por exemplo, afinal de contas, quem são os vilões? Eles existem? O que eu sou nisso tudo de bem e mal?

Chegaram, entrou no consultório recioso, olhou ao seu redor, observou detalhadamente cada peça de revestimento da parede, toda aquela branquidão de hospital, observou os cartazes de crianças desaparecidas na parede, impaciente, sem saber onde por as mãos, inquieto, um ar gélido entre os lábios, nervosismo desde criança causando estas sensações. Olhando para o teto, ainda nervoso, ao descer a cabeça, pronto, lá estava ele, todo de branco, Dr. Ryan. Quando chamado assim, tão seriamente, remete a um senhor, mas não passa de um jovem, veio da cidade grande em busca de paz e sossego. Único psicólogo na cidade demonstrou segurança apesar da idade, fez com que Edward o visse de maneira mais amena, e mesmo assim, convidado a entrar em sua sala, resistiu. Sua mãe o empurrou. O Doutor sentou-se, e pediu que sentassem também, e antes mesmo que perguntasse algo, Edward esbravejou - odeio interrogatórios! – Calmamente o doutor disse - É só uma conversa, e perguntas vão haver meu caro, algumas podem não ter respostas neste momento, mas isso não importa agora – E prosseguiu – Por que não gosta de perguntas? – No que Edward respondeu – Não gosto de responder coisas sobre mim, e sempre que respondo, logo surge outra invariável pergunta. Sua mãe claro já nem sabia onde enfiar a cara, e já foi logo se desculpando por seu filho. O doutor então seguiu dizendo- Não há problemas, queremos exatamente isso acessar seus sentimentos- Edward arregalou os olhos – Meus sentimentos? – Levantou-se e saiu porta a fora deixando sua mãe sem jeito. O doutor só disse então que trouxesse-o de volta outro dia para conhecê-lo melhor.

Quando chegou no carro lá estava ele sentado, já de cinto posto, observou ele ainda de longe, se olharam, ele baixou a cabeça, e ela deu a volta pra entrar, os dois permaneceram calados por todo o trajeto de volta, sequer sabem se expressar.

Ao chegar a casa ligou pro Richard, o chamou pra ir à cachoeira, os dois se encontraram no inicio da trilha, ao chegar nas margens já correram tirando as roupas, de cueca pularam na água, e nadaram, se divertiram muito, por um longo tempo. Distraídos não notaram a presença de Presley e sua turma aos arredores. Depois de nadar os dois subiram numa das pedras grandes, Edward deitou-se e o assunto persistente do futebol começou – Por que não? Eu sei que você gosta. As vezes parece ter tano medo do Presley que não consegue fazer mais nada. – Não é medo, só não quero ser humilhado como de costume. Não entendo por que precisa de mim pra entrar no time, entre sozinho! No meio da discussão quando saíram perceberam que suas roupas não estavam mais lá, procuraram desesperadamente, mas não adiantou, concluíram que teriam que voltar de cueca, já era tarde, em pouco tempo anoiteceria. Mesmo assim não tinham ideia do que fazer pra que não fossem vistos daquele jeito. Sem saber o que havia acontecido seguiram pela floresta, e um vento anunciava uma tempestade, pensaram que por um lado seria bom, com chuva, não teria ninguém na rua para os verem. Os pingos de chuva eram grossos e frios, os dois corriam se contorcendo na chuva, atravessaram entre arvores, , folhas, troncos velhos e escorregaram muito na lama. Já na rua de casa, escondendo atrás das lixeiras, e das arvores, com a lama escorrendo pelo corpo. Chegaram à casa de Richard, entraram devagar pensando que os pais de Richard estivessem em casa, mas estava vazia. Os dois de cueca ensopados molharam todo o chão, subiram até o quarto, pegaram toalhas, e seguiram até o banheiro tomar banho rápido, ainda tinham que limpar a sujeira que fizeram na casa. Um na banheira, outro no Box, ensaboados comentavam sobre o sumiço das roupas, levantou-se a possibilidade de ser o Presley, mas sem certeza alguma. Apressaram-se, saíram do banho e logo limparam a bagunça, com uma peça de roupa de Richard Edward foi saindo, tinha que chegar em casa logo, antes que sua mãe ficasse preocupada. Saindo Richard lembrou que ia pensar no futebol, no que Edward respondeu – Nem pensar!

Mesmo de guarda chuva chegou em casa molhado, sua mãe perguntou onde estava e que roupa era aquela, disse que era de Richard e subiu sem muitas explicações. Após o jantar foi direto para o quarto, estava cansado, querendo dormir. Antes de deitar, sentou na ponta da cama e rezou em silencio, as pernas adormeceram, os olhos se fechando, era o sono. Sem notar, seu corpo foi adormecendo lentamente, primeiro a visão, depois o olfato, em seguida o tato. No fundo negro de seus olhos uma chuva ainda lenta, no fim, o orvalho brilhando nas folhas, e um dia muito escuro, ele andava como se tivesse um lugar pra chegar, andava com pressa, notou que passava em frente uma igreja cerca de grades pretas, próximo d o portão, foi abordado por um senhor, batina, botas pretas, cabelos brancos, rugas, unhas grossas, não disse nada, o senhor elevou sua mão fechada, como quem vai dar algo, Edward estendeu os braços para receber. Caiu na palma de sua mão um rosário de madeira, a visão ficou turva de repente, e ele acordou assustado, sentou-se na cama suado, ofegante ainda. A luz da lua forte iluminava a madrugada em seu quarto.

As sete da manhã, sem problemas para acordar, levanta, de pijama lava o rosto, bota o uniforme da escola e desce para o café, calado o tempo todo, ouve-se sua voz, quando diz “tchau”. Ainda em frente de casa, na escada, indeciso de qual caminho seguir pra escola, segue então por dentro da cidade, o que não é de costume, as folhas secas cobrem o chão, ele anda apressado, passa por casas, arvores, jardins, e de repente, grades pretas, as mesmas do sonho da ultima noite, levanta o olhar, vê uma igreja, caminha lentamente até o portão, aberto resolve entrar, segue até a porta, no altar da igreja um caixão, alguns padres rezam nos bancos da igreja, ele resolve seguir então, curioso para sabem quem esta morto, passo a passo aproxima-se lentamente da borda do caixão, um susto enorme o faz arregalar os olhos, parece não acreditar no que esta vendo. O senhor do sonho, com o rosário enlaçado entre as mãos.





sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Redução da maioridade penal para quem?

Sejamos francos, afinal de contas, quais são os argumentos de alguém em plena condição de sanidade mental, defender a redução da maioridade penal como se isto fosse à panaceia dos problemas de violência no país? Que me desculpem os defensores incansáveis dessa patacoada de redução da maioridade penal, esses que participam de campanhas dos “inteligentões” e “Almeidinhas” nas redes sociais, e nas rodas de amigos compartilhando de frases e argumentos prontos, quase que protocolados no intento de acordar o Brasil, de alertar a população para um assunto, ou uma opinião que parece obviamente coerente, cheia de sentido, e que compara a redução da maioridade penal, justamente com as infrações cometidas por crianças e adolescentes, sem ser capaz de compreender nada além do que o próprio umbigo e a própria “vidinha” feliz já internalizada pela ideologia neoliberal de culpabilização do indivíduo.



Como é exaustivo enfiar na cachola de gente que só pensa no próprio umbigo princípios de alteridade, que não sabe sequer, o significado da palavra. Pois bem, longe de mim subestimar arrogantemente a inteligência dos “inteligentões” e “Almeidinhas”, só por mero capricho explico que alteridade é resumidamente a capacidade de se por no lugar do outro, o que a meu ver é uma das habilidades mais fenomenais que um ser humano pode adquirir. Por tanto, antes de qualquer opinião fajuta que você possa formular procure mesmo que internamente se por no lugar do outro, já aviso, a tarefa é árdua.



O primeiro equivoco de quem defende a redução da maioridade penal é não ter acesso a conhecimentos simples, e bem acessíveis por sinal, costumo me referir a isso como ignorância. Uma leitura superficial do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente seria o suficiente para qualquer ser provido de um mínimo de inteligência entender que crianças e adolescentes são indivíduos em processo de desenvolvimento e possuem dentro da organização social vigente direitos e deveres. O que os “inteligentões” por ai fazem é vociferar contra o regulamento especifico para crianças e adolescentes alegando que ele só da direitos. Não meus queridos, o ECA prevê punição: Capitulo IV – Das medidas Sócio-Educativas- Seção 1 – Art.112. Verificada a prática de ato infracional a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas: Advertência; obrigação de reparar o dano; prestação de serviços a comunidade; liberdade assistida; inserção em regime de semi-liberdade; internação em estabelecimento educacional. Ou seja, ao invés de ficar por ai feito zumbi compartilhando de forma acéfala ideias imbecis como esta, poderiam estar cobrando que o ECA fosse efetivado, que melhorias fossem feitas nos programas destinados a recuperação de jovens internados, que houvesse investimentos reais na educação da juventude pobre e negra deste país, por que sem dignidade meus queridos, não esperem que todos sejam assim, vencedores, colecionadores de sucessos, que superam as dificuldades da vida como vocês “inteligentões”.


Um dos argumentos inquietantes a favor da maioridade penal, é aquele que vem direto pra quem é contrário, e soa mais ou menos assim “quero ver quando uma dessas crianças que você defende matar alguém da tua família”. Eu respondo com outra pergunta então, quero ver quando alguma criança da tua família não tiver o mínimo acesso a dignidade, aos direitos básicos, passando fome, vulnerável as mazelas da sociedade, sem qualquer perspectiva de vida, e, além disso, tudo ainda ter um bando de imbecis querendo reduzir a maioridade penal para por o teu filho, já arrasado pelo sistema dentro de uma cela comum, com criminosos adultos, nas cadeias do Brasil, sem ter qualquer perspectiva de reabilitação e reinserção na sociedade, o que você faria?

É bom lembrar, que a redução da maioridade penal caso fosse uma possibilidade, seria, ou teria de ser para todos invariavelmente, o que quer dizer que apesar de botar muito negro e pobre na cadeia, como já é de costume, poderia acidentalmente, já que seus filhos hão de ser estandarte da moral e dos bons costumes, ao cometerem atos infracionais segundo o ECA hoje, serem também enviados as cadeias comuns.



Em síntese, ser a favor da redução da maioridade penal é a prova cabal da mais pura burrice, da mais pura falta de alteridade, da mais pura falta de sensibilidade ou preocupação com o futuro do país, é preocupar-se com o próprio umbigo, e esquecer que nós não vivemos em um regime nazista, onde raças e outras características humanas devam ser rechaçadas, em detrimento de seres brancos, ricos, loiros, bem sucedidos. Não tente acordar o Brasil com esse banho de água fria, cheio de lógica burguesa, cheio de verdades cristalizadas sobre a moral e os bons costumes.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Bebericam sobre as fezes e brindam com Champagne Heidsieck

Rodrigo Eduardo dos Santos

Eis que embevecidos pela possibilidade de uma nova chance, com a proximidade de findar-se mais um ano, erguem-se as taças, e brindam, como se realmente existissem motivos. Como se fosse possível comemorar tudo aquilo que não existe além das próprias mentiras que se contou, para fingir ser aquilo que nunca foi, e nunca será.

Um belo dia você acorda, e percebe que as pessoas continuam a ser aquilo que elas sempre foram, porém adultas, elas conseguem ampliar isso de tal modo, que inacreditavelmente, muitas vezes não conseguimos perceber o quão são egoístas, medíocres, traiçoeiras, interesseiras e covardes. Nesse meandro, é que me dei conta de quantas vidas aparentemente cheias de sentido estão enganando nossos olhos, me dei conta de quantas famílias aparentemente felizes, estão sendo estruturadas sobre bases extremante frágeis, sob a égide da mentira, que vem se enraizando desde muito antes, tendo como adubo a ambição acima de qualquer preço.

Desde muito cedo, aprendi a identificar apenas no olhar, esse certo tipo asqueroso de pessoa que normalmente cai facilmente nas graças de uma considerável maioria, sem despertar suspeitas para seu verdadeiro caráter, sua concepção equivocada sobre o que é ética. Essa distorção sobre a concepção de ética, penso que muitas vezes perversamente oportunista, traveste-se em sua maioria de simpatia, sociabilidade e bom gosto. Este bom gosto é o reflexo quase que imediato dos desejos de qualquer ambicioso que se preze. A ambição perpassa as questões que envolvem o status social, a ascensão social que pode proporcionar ao ambicioso a conquista, e assim, os valores éticos, se fundem com os próprios interesses de ascender socialmente.

Ascender socialmente requer muito mais que a conquista de bens materiais. Além disso, paradoxalmente emerge a necessidade de exposição destas conquistas no habitat social como uma espécie de troféu. A ostentação, demonizada aos domingos na igreja, entretanto praticada invariavelmente no dia a dia, de modo natural e intrínseco ao conceito de ética, já determinado anteriormente é uma característica pungente na construção desse indivíduo.

Nota-se desta forma, que construir um sujeito desse tipo, exige compreender antes de tudo, como ser mascarado, como vestir uma pele que lhe dê passaporte para qualquer canto, com qualquer pessoa, passando por cima de quem quer que seja em prol de interesses escusos, travestidos de família feliz.

O que definitivamente eu quero dizer com isso, é que hoje, quando inocentemente dedilhava as teclas do meu computador, me deparei com algumas atualizações no Facebook que me chamaram a atenção. Trata-se de uma incontrolável vontade de expressar de modo superlativo as conquistas sobre o pódio. Tal como na ficção, abarrotam a vida real um tipo de gente doente, capaz de todos os tipos de atrocidades para subir na vida. É normal alguém envolver a família toda no contrabando, tornando isso uma atividade natural entre os membros, lavando dinheiro em negócios aparentemente legais? Quais são afinal de contas os valores éticos que baseiam as relações dessa família de modo geral?

Sabe quando você começa a estranhar a forma como algumas pessoas chegaram feito cometa numa certa posição social? Sem moralismo algum, o que deve ser compreendido, transcende os meios legais ou ilegais que se conseguiu chegar aonde chegou. O que mais impressiona, é como nesta posição surge uma necessidade de fazer parte dos padrões éticos preestabelecidos pelo grupo social, padrões os quais foram transgredidos antes. Sabe aquela menina pobre, de cidade pequena, que ambiciona um mundo de possibilidades longe daquilo tudo? Aquela capaz de desprezar a própria família, de negar suas origens, de fingir ter nascido de chocadeira só para não apresentar o futuro almejado à pobreza da raiz. Aquela que em pleno século XXI impressionantemente usa de uma metodologia arcaica muito eficiente de conseguir aquilo que quer. Usa e abusa da vulva, da feminilidade, da sensualidade, da fragilidade, e como um canto de sereia vai encantando seu próprio pote de ouro. Estou falando de ambição, não de mulher, que fique claro. Por que ambição não escolhe sexo, não escolhe cor, não escolhe nem classe social. E por isso mesmo, por mais que ambição tenha a ver com acumulo de riqueza, também tem intima relação com a ostentação da mesma. E ostentar esta totalmente atrelado a ideologia hegemônica de que felicidade não pode ser outra coisa que não, uma família católica apostólica romana, com filhos loiros, fofos, de olhos claros, com avós super prestativos e com pais super presentes, mesmo sendo grandes empresários, buscam e levam os filhos na escola, gravam até mesmo o primeiro coco da criança, sorriem para a câmera, e ouvem música boa, por que aprenderam o que é bom gosto pagando muito bem pra isso. O fato, é que essa vidinha de comercial de margarina ignora um passado sombrio na maioria das vezes. Um passado jogado pra de baixo do tapete, onde pessoas foram usadas, desprezadas, humilhadas, tratadas como mero apoio para esse, “alçar voo”. As concepções acerca de ética retornam abruptamente nessa súbita escalada pelo poder, junto à capacidade de fingir ter conseguido isso com o suor do próprio rosto sem prejudicar absolutamente ninguém. Buscando fazer uma analogia, é como varejeiras, a bebericar sobre as fezes e mais tarde brindar com champagne Heidsieck num lual a beira de uma praia badalada, hospedado em um hotel cinco estrelas, com fotos instantâneas na rede social. Surge então a pergunta que não quer calar para por em contradição aquilo que muito poucas pessoas têm conhecimento. Os meios para chegar onde está deixaram quantos feridos para trás? Uma mãe rejeitada talvez? Ou uma família inteira? O mais engraçado disso tudo, é massacrar uma família inteira, com o puro e mero objetivo de formar outra família, que na sua concepção ética, é a superação daquela miséria de onde você veio, e deve ser esquecida da face da terra. Soa-me extremamente contraditório, no entanto, com disse antes, a ambição se atrela ao pensamento da classe dominante, que historicamente determina quais os requisitos para ser feliz e aceito socialmente. E ser aceito socialmente implica em esconder tudo àquilo que é feio, que é vergonhoso, que não vale nada, que o mundo do glamour abomina veementemente, mesmo que essa vergonha seja a pessoa que mais te ama.

Depois de ter me admirado com as seguintes situações, internamente indaguei qual a concepção de ética vem regendo minhas atitudes, e como as coisas não precisam necessariamente parecer bonitas e perfeitas. Basta que sejam o que são. Parecer não vai mudar as coisas como elas são, mesmo que eu me convença disso. O passado é um fato histórico, e em algum momento da vida “feliz” ele pode voltar a feder, e toda a sua concepção de ética pode desmoronar na tua própria cabeça. Já imaginou o que teus filhos vão pensar de você, quando descobrirem que tipo de coisa você esteve disposto fazer para construir essa mentira em que vive?


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Contradição de Natal

Quando o natal acabou


Cada pedaço de pessoa foi prun’lado

Cada momento disfarçado

De alegria, por tristeza foi trocado.

Quando o ano novo apontou

Cada promessa tão humana virou passado.

E cada alma generosa sem pecado

Regeneradas em uma confissão

Quando janeiro começou

Cada pessoa que beijou, e deu abraços.

Cada recado travestido de sentidos

Cada presente destruído

Virou passado e solidão.

Quando as estrelas já distantes

Em artifícios delirantes

Brilhando feito diamantes

Tão falsos quanto o teu amor

Interrompidos pelos seus conflitos

Que se desmancham feito sons dos sinos.

Reverberando o meu dissabor.

E de tanto ouvir falar que o amor vale um tostão

Fiz-me objeto embrulhado

Em papel de seda em laço

Desejando um passo em falso

Cair em contradição.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Pitangueira

Não me esqueço desse gramado

Desse verde, e da casa vazia.

Por que essas paredes me sufocam tanto?

Eu não sei por onde ando

Já nem sei se estou chegando

Parece muitas vezes que nunca parti.



Desse quintal que vive em mim

Da pitangueira que nunca esqueci.

Das tuas folhas pequenas

Das suas raízes nobres

Daquelas noites serenas

Janelas de sonhos, que nunca abri.



Apita pitangueira maestrina

A vida que se veste de menina

Menino que se despe ao por do sol

Apita pitangueira seu farol

O seu desejo de não ceder a ninguém.

Ser pitangueira, ser guerreira.

Ser de menino e de menina

Sem quem, por que, só bem.



Eu não esqueço o cheiro do fim de tarde

Eu não esqueço a chuva e a terra molhada

A macarronada, o pé de jabuticaba.

Suas partidas, suas chegadas.



Despedidas matinais, todo dia,

Eu não sei ser boa pessoa

E preencher essa parte vazia

Eu não sei sorrir a toa

A pitangueira que me dizia.

Chove a chuva molhada

Banho na enxurrada

Pitangas caídas no chão

Colhem flores, colhem dores.

Há uma pedra na minha mão.



Eu não esqueço que jogava pedrinhas

Das paredes azuis que hoje são pretas

Nem do baú, hoje gavetas.

De pitangueira a folhas secas.

Eu não esqueço a vó “mainha”

Da voz que tinha

Dos seus trejeitos.

Eu não esqueço a mãe que vinha

Da agonia

Dos meus defeitos.



E de tarde, a pitangueira coberta de orvalho.

Refletindo a fita solar

E de noite a pitangueira no armário

Pitangueira solitária

Esparramada no quintal

Trancada no próprio lar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Os tais senhores.

São apenas senhores

São os tais

São senhores de horrores

Animais

Secos moralistas,

Velhos egoístas, traiçoeiros e covardes.

Animais que sugam de tudo

São os tais

Aprovam as suas cifras, sem alardes.

São pastores, vereadores, são descartes.

Rastros desmanchados, seus crimes, seus critérios.

Ranços em pedaços, cordiais de porta de igreja.

Liberais, de ponta cabeça.

Senhores da casa de lei

Senhores doutores, se vestem de rei.

Senhores aposentados, com prêmios especiais.

Senhores ditadores

São os tais.

Os tais da calada da noite

Que decidem seus próprios destinos

Com aval, desse povo bovino.

Os tais indiferentes da corte

Que se condenam a liberdade

E se banham da impunidade.

São deputados, senadores, padres.

São apenas senhores,

São apenas doutores,

São apenas horrores.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Amor - te leve

A vida vem como um sopro, que de tão leve, não deveria pesar tanto.

Ela vem de pouco em pouco, e de tão breve, demora tanto.

Nela da tempo de criar amor, amor se cria

Nela da tempo de criar a dor, a dor se cria

Só não faça da vida, eterna apatia.

Ela vai desconstruir suas verdades

Suas metades.

A vida vem pra nunca mais voltar, de tudo que passa, só ficará

De tudo que fica só lamentar

Com todas as penas, não voará.

Amor, te leve, que de tão leve se esvaiu.

A morte breve, e de tão breve, nos consumiu.

A morte então acontece, e de tão fria, não deveria queimar tanto.

Ela vem como rabo de foguete, melancolia, percebida em qualquer canto.

Nela da tempo de criar amor, amor se cria

Nela da tempo de criar a dor, a dor se cria

Só não se cria essa melodia

Disfarçada de poesia.

Ela vai desconstruir as duas metades

É capaz de engolir, as suas verdades.

A vida vem pra nunca mais voltar, de tudo que passa, só ficará

De tudo que fica só lamentar

Com todas as penas, não voará.

Amor, te leve, que de tão leve se esvaiu.

A morte breve, e de tão breve, nos consumiu.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

No Verde - Louro desta Flâmula, existe um túnel, e espelhos d’água.



Sob os canteiros coloridos e as árvores robustas da cidade canção, prolifera-se uma planta inóspita. Uma erva daninha arrojada, moderna, de traços retilíneos, de temperatura gélida, erva em forma de concreto, ela cativa pela altura estonteante, derruba com golpe rasteiro a compreensão sobre a beleza. É como uma mulata que pinta os cabelos de loiro, ou a loira que pinta os cabelos de preto, é a perda da identidade e da referência, que passa despercebida aos olhos de quem acredita na falácia do desenvolvimento urbano, por meio da construção acelerada de prédios, centros comerciais, shoppings, luxuosos condomínios residenciais, faculdades privadas, hipermercados, tudo isso sob a égide do consumismo exacerbado, que se reverbera numa concepção destorcida do que uma cidade realmente precisa para ser considerada desenvolvida.

Entendo, desconfiado, os defensores deste desenvolvimento urbano proposto pelo governo pepista, por estarem imersos numa ignorância dos fatos, como eles são em sua raiz, concebendo a beleza a partir das ideias já vendidas pela ideologia dominante, os famosos padrões estéticos, pautados numa beleza duvidosa e pouco inteligente. Via de fato, é claro que todos querem desfrutar da beleza do lar, do conforto, de novas tecnologias, de tudo aquilo que o homem é capaz de produzir. O que deve ser questionado, em primeiro lugar, é se todos podem fazer usufruto destes bens, e em segundo lugar, qual o limite entre produzir o conforto e beleza, e destruir tudo isso, usando do mesmo discurso?

Quando alguns abnegados encaram o protesto contra a reforma da catedral, ou a construção do túnel na UEM, como uma perseguição política, ou como falta do que fazer, o que fica explicito, é a profunda incapacidade de questionar a realidade, além dos códigos explícitos. Há de se interpretar este texto que a realidade nos apresenta, buscando justamente compreender aquilo que não vem estampado, e que de fato, não há intenção em ser visto. Assim, quando questionamos o modo como se conduziu os procedimentos para a reforma da catedral, voltamos os olhos a impulsividade quase doentia de se atravessar um túnel dentro da UEM, e na memória resgatamos uma série de outros eventos, que fazem um delineamento daquilo que vai constituir a continuidade desse método autoritário e aburguesado de governar. Entre estes eventos, a derrubada da antiga rodoviária, com o simples propósito de construir um estacionamento, a cidade sendo planejada para fluidez no transito, e pedestres cada vez mais sem opções de circulação segura, ciclistas então, invisibilizados completamente.

“Por fora bela viola, por dentro, pão bolorento”, definiria as ações políticas investidas pelo governo pepista. O que de fato há, é a construção de uma imagem, produzindo uma ideia de pertencimento na população, assim, atordoados, vestem a camisa, e regam a erva daninha, para suas próprias agruras. Uma bela catedral, rodeada de espelhos d’água fotografada em época natalina, entre fogos de artifício, e as luzes decorativas, criam esta sensação de fazer parte de algo grandioso, de sentir-se orgulhoso de morar nessa cidade, te faz acreditar ter o direito de dizer ao mundo sobre as belezas do lugar em que você vive, mesmo, vendo a catedral de longe, de alguma das periferias, com canteiros nem tão floridos, com arvores nem tão robustas, com ruas nem tão limpas, com pontos de ônibus nem tão sofisticados, com arvores nem tão decoradas, com casas nem tão bonitas. A lógica é essa, centralizar as benfeitorias e criar a sensação de que todos estão sendo beneficiados. O centro da cidade vizinha à cidade canção, coincidentemente, governada por um pepista, segue o mesmo rumo, a avenida central, perdeu qualquer resquício de árvore, para calçadas e postes. Qualquer imbecil que por ali passe, enxerga o progresso, o desenvolvimento urbano. Este imbecil que vos fala, não compreende como este retrocesso pode ter chegado com essa nova roupagem, sem sequer ser notado.

Esse desvio de foco proposital, que nos faz preocupar-se com questões estéticas do município, escamoteia a não preocupação com questões que deveriam ser resolvidas definitivamente, antes ou junto a qualquer embelezamento falseado da cidade, como educação e saúde, sem banalizações. Não estou falando de merenda, nem de uniforme escolar, por que se a preocupação for essa, continuemos cultuando a bela catedral e sua magnitude, ou ainda os megalomaníacos projetos de centro cívico, ou túnel da UEM. Estou falando de se aprofundar nas verdadeiras mazelas, que nos colocam em classes diferentes, e que de fato mudariam a estrutura social, estou falando de dignidade, de liberdade e de igualdade, sem utopia, me refiro a ações concretas, não do concreto espalhado literalmente substituindo a capacidade intelectual da população, mas de ações efetivas, reais, sobre a realidade, que transcendam os espelhos d’água.



domingo, 25 de novembro de 2012

Um diálogo com um estranho na avenida solidão.


Passava do meio dia, já havia dado tempo de se recuperar do sapo do almoço. Debruçado sobre o centeio, dobrei uma das pernas como de costume, relaxei os ombros, recai o semblante, mais uma vez, dentre as mil. Abri o zíper da calça, chutei os sapatos de lado, observei o panorama, refleti: Eles já não fazem parte daquilo que me constitui, já não fazem parte de nada, sigo sozinho, não pela primeira vez, sigo sozinho, por que sigo pelo único caminho. Não há opções. E não há, justamente por que não há espaço, não cabe dentro de tudo o que eu compreendi do mundo, nem se quer um resquício de todo esse ar de indiferença. Senti-me, um estranho até para mim, recuei nas falas, recuei na alegria, recuei nas expectativas, recuei, por que não há de se levar a diante qualquer tipo de relação que possa mortificar qualquer possibilidade de existir, qualquer possibilidade de sentir-se vivo. Caminho agora, alardeando entre as floras, entre os perfis, entre os costumes, toda a ausência. Toda a ausência, parte da incompreensão, do egoísmo, do olhar para si. Notei, que ao observar o quanto eles se amam, a si mesmos, me senti enojado, eles falavam a todo instante, deles mesmos, não havia conversa, era como se houvesse uma parede que ecoasse para dentro o diálogo. Refleti, por mais um minuto: Avaliei meus posicionamentos, constatei inevitavelmente, o que não podem negar, eu sempre estive ali, eu sempre soube e fui “ouvidos” há quem tinha o que dizer, eu sempre perguntei, me interessei, dei importância, sempre a disposição, e, no entanto, isso nunca foi, absolutamente em momento algum recíproco. Como sempre, eles primam pelo monologo, eles falam sobre eles, eles perguntam sobre eles, sofrem por eles, e por mais que eu tenha interesse, por mais que eu dê importância, e por mais que eu tenha dado fé, e por mais que eu tenha criado expectativas, não há laço algum, que não se desfaça mediante, todo esse azedume, toda essa ausência de essência, todas essas opiniões contrárias, toda essa falsidade, toda essa covardia, todo esse preconceito velado, toda essa hipocrisia. Compreendi de fato, que esse caminho só é doloroso, por que eu aprendi a observar a paisagem, o contexto. Aprendi a interpretar a realidade, e cada passo nessa avenida é um momento de náuseas, de decepções, de indignações. O não conceber a possibilidade de que tornem superficiais, banalizem, ou reduzam tudo aquilo que faz parte do teu ser, tudo aquilo que faz parte da tua identidade, da tua essência, se torna maior do que a capacidade de tolerar. Quando chega o momento que percebe não ter absolutamente ninguém para dizer o que pensa de verdade, quando percebe, que o único lugar capaz de aceitar seus devaneios são os papeis, é que de fato nota que não existem laços capazes de amarrar absolutamente nada, e que se é para falar de si mesmo, e se é para não ser ouvido, prefiro dialogar comigo mesmo, um estranho, na avenida da solidão. Prefiro a solidão a esse diálogo torto e infeliz, prefiro a solidão a esse conceito raso sobre o interesse, sobre dar importância, e essa falta de capacidade de se por no lugar do outro.



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Senhora de Vênus


Tarântulas, tamanduás, e ela, sabem.

Tumultuar pra disfarçar, sem ter margem.

Ela partiu, em parte, desiludiu em marte.

Mulher carnívora, voraz e escrava.

Se humilhar não faz mais parte dessa válvula

De escape.

Desalmada, encontrei no meu penar.

Aquela senhora, de historias pra contar.

Sorridentes, e salvaguardadas.

Senhora de Vênus

Meu sonhos pequenos, são só seus

Seus olhos morenos, seu corpo pequeno não é meu.

Me vejo no espelho e acordo assustado

A idade é de Deus.

Na crença perene de estar convergente com seus ideais

Respostas decentes não partem correntes

Mulheres são crentes e choram demais

Mulher que sabe o que quer. Mulher, mulher, mulher.

Senhora de Vênus, teu canto é de ninar.

Mulheres pequenas que vestem problemas

Não podem mais respirar.

Sem hora, sem tempo, senhora de Vênus

Que desce das nuvens em passos disfarçados

Invertem boatos, descrevem-se os atos.

Senhora dos fatos. Sem hora pro lar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Reconhecida, mente.


Um homem não é um homem, se não for outro homem.

Outro homem que te faça homem, que te faça humano.

Que te reconheça.

...Um homem que desfaça o ontem, que se faz humano.

Que se estabeleça.

Um homem sozinho, não é um homem, nem sobre homem.

Nem sobre ontem, nem sobre hoje, nem sobre terça.

Não passa de ser irreconhecível.

Pois não há quem o reconheça.

Um homem que mente precisa de gente

Precisa de mais do que lhe pareça.

O homem que diz, precisa do homem que ouve

O homem que escreve, precisa do homem que lê

O homem que vive, precisa se reconhecer.

Reconhece-te no outro

E quando o outro é invisível ou ausente

Reconhece-te em ti mesmo.

Com a humanidade não reconhecida, mente.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Casulos


Quantos casulos hão de durar obscuros?

Quantos humanos hão de sonhar sob os muros?

E quantas vezes há de se sentir só?

...Quanta solidão cabe numa multidão?

Cada janelinha esverdeada

Cada disponível sem solução

Onde tá todo mundo que não tá todo mundo junto não?

Eles parecem felizes, fotografam sorridentes.

Instagram como se fossem capas de jornais

No divã, me parecem tão banais.

Eles pensam momentaneamente como você

Praticam outras coisas, com outras pessoas.

Eles leem livros, mas não falam com pessoas.

Eles se omitem, e sorriem de outras coisas.

Quantos casulos juntos hão de durar?

Quantos casulos duros ei de romper?

Tantas solidões solitárias

As mesmas desculpas entre várias

As mesmas respostas canalhas.

Eles compartilham frases prontas

Insólitos a converter para a felicidade.

Revestem-se de orgulho

Travestem-se de maldade.

Quantos orgulhos hão de amargar?

Quantos orgulhos ei de ceder?

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Promessas



Vamos fugir, não vamos deixar nada pra ninguém.
Não deixe tantas coisas, pra depois.
Não tenha medo, dessa coisa de nós dois.
Nós temos tanto tempo pra acabar
Não termine esse momento sem pensar
Mensagens escritas, no meu celular.
Me dizem que não passou de promessas
Foram essas, que eu nunca esqueci.

Decida esse momento devagar
Não faça do meu mundo um inferno
Não adianta mais dizer eterno
Aquilo que não passa de um penar
Vem da boca pra fora como ar
Se sente, mas não tem como tocar.
Eu peço que me esqueça, eu peço mais.
Não seja meu amigo e se desfaz.

Faz algum tempo que eu notei
Eu acho que no fundo o que eu pensei
Não vale nem a pena, eu sei.
Então me deixe aqui sozinho
Não me engane com o seu carinho
Eu já estou tão insatisfeito.
Então me deixe aqui comigo
Não venha me propor ser meu amigo
Eu nunca disse que eu era perfeito.

Não posso mais viver de ser trocado
Não sei como viver sem ser usado
Eu troco minha roupa no mercado
Eu vejo todo mundo me roubar.
Eu vendo minha alma pro diabo
Eu ando disfarçando o disfarçado
Não tenho canto pra te acomodar
Com esse seu vazio no olhar
E essa sua mania de pensar
E termina o que sempre nunca começa
E me deixa esse balde de promessa
Pra que eu posso nos meus sonhos me encharcar. 

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